O presidente do Botswana, Duma Boko, surpreendeu o seu país, a região e o mundo ao denunciar e criticar asperamente as gordurosas comitivas e frequentes visitas presidenciais que sempre foram prática nos anteriores governos tswanas – e ainda são o pão de cada dia em quase todos os países da região e de África em geral. Boko assumiu a presidência do Botswana em Novembro de 2024. Logo após o início do seu mandato, adotou uma postura de austeridade muito racional e bastante ética.
Não desatou a fazer discursos bombásticos atrás de discursos bombásticos, a prometer mundos, fundos e ideais. Começou pelo princípio: fazer limpeza em própria casa, na presidência da república; escrutinar a casa que estava a ocupar. Examinou os custos das viagens presidenciais internacionais e a própria logística da presidência. Após isso, criticou vigorosamente a tradição de levar dezenas, por vezes centenas, de acompanhantes do presidente (entre ministros, conselheiros, assessores e outros funcionários) para deslocações ao exterior. Classificou essas comitivas de desperdício de dinheiro público e afronta aos concidadãos em dificuldades econômicas. E reduziu as visitas ao estrangeiro, bem como o tamanho das comitivas ao mínimo possível de cinco a seis acompanhantes por cada deslocação, o número estritamente necessário – quando antes eram 50 a 60 e quase as mesmas pessoas, independentemente do assunto.
Mas Duma Boko não se ficou apenas pelo corte nas visitas ao estrangeiro e no tamanho das comitivas presidenciais. Nos gastos públicos, aplicou a receita de austeridade radical, cortes drásticos das próprias viagens (dele e dos membros do seu governo), redução de comitivas e foco na eficiência operacional governativa; introduziu o que chamou de “salário digno”, que consistiu no aumento salarial aos funcionários públicos como forma de elevar o seu poder de compra, a moral e a sua produtividade. Outrossim, focou-se no incremento da diversificação da economia como forma de reduzir a grande dependência do país ao negócio de diamantes; criou um plano de industrialização rápida e estabeleceu incentivos ao sector privado (nas micro, pequenas e médias empresas), como estratégia de absorver mais mão de obra genuinamente nacional. E apostou a sério na digitalização como forma de reduzir a corrupção, a ineficiência e o desperdício.
O estadista tswana subiu ao poder em Novembro de 2024, nós acabávamos de realizar as nossas problemáticas eleições gerais, mas o novo governo ainda não tinha assumido o poder. Só que depois tomou posse. Aprendemos – ou, se se preferir, copiamos – alguma coisa dos tswanas? Nada. Até alguns entre nós etiqueta(ra)m a abordagem do presidente do Botswana de populismo.
E a nossa procissão seguiu o seu modus vivendi e operandi, o seu religioso adro: continuamos, com mais força, com cada vez mais discursos barulhentos ocos, cansativos, inconsequentes, sem acção concreta; prosseguimos com as viagens nacionais e internacionais sem olhar para o tipo de país em que nos encontramos: na bancarrota. Continuamos a realizar viagens para o exterior a uma velocidade de duas a três viagens por mês. Continuamos a realizar viagens internas a uma velocidade do vento: duas a três viagens semanais para as províncias em missões que podiam ser realizadas por ministros, governadores, até por administradores distritais. Praticamente matamos estas figuras no nosso cenário político nacional! Não servem para muito…
Continuamos com as nossas gordas comitivas, tanto para dentro quanto para fora.
Mas, por outro lado, ainda estamos a discutir – e essa discussão foi abafada e tudo continua como dantes – se as contas da nossa presidência da república devem ou não ser auditadas. Esta discussão foi despoletada há cerca de dois anos, mas desvaneceu quanto a neve.
Como se esta lição proveniente dos tswanas não fosse significativo, muito profundo, eis que temos outra, bastante mais profícua. Mas esta vem dos tugas, aqueles mesmo que nos colonizaram. Mais uma, infelizmente.
Semana passada, António José Seguro foi eleito próximo presidente da República Portuguesa. E o que vimos? Não vimos sua esposa correr encomendar um vestido mais caro de Portugal ou da Europa para usar na cerimônia de tomada de posse do seu marido. Nem vimos a ela a contratar estilistas para lhe prepararem um vestido para cada cerimônia pública em que o seu marido vai participar e a passar a andar com elas por todo o sítio onde anda a usurpar competências governamentais. Pelo contrário, ela, pública e assertivamente, declarou, com todos os dentes da sua boca, que a sua intenção é continuar com a sua vida normal e manter a sua actividade profissional – uma atitude de grande dignidade humana! Mas, aliás… até em Portugal mesmo, nunca vimos uma primeira dama atrás do marido em tudo o que é sítio, de mão dada em directo.
Está-nos difícil aprender dos outros, ou, pelo menos, copiar dos outros as boas práticas ético-sociais; as boas políticas, as boas iniciativas e os bons procedimentos. Estamos, pelo contrário e cada vez mais, a ensinar ao mundo o oposto do bem social, da ética, da moral e de harmonia: hoje, cada vez mais países pelo mundo usam a AK-47 para se relacionarem com os seus povos; usam cada vez mais as cê-ene-és, stais e os conselhos constitucionais para “ganharem” as eleições. Essas são as nossas lições.
Definitivamente, estamos incapazes de assimilar, internalizar e subsumir a ética, a moral e o social!
ME Mabunda





