Passaram cinco anos desde que Juma Aiuba decidiu emigrar para a eternidade. Deus Todo-Poderoso, depois de avaliar o ambiente celestial, terá concluído que ali faltava qualquer coisa entre o salmo e o silêncio, um humor mais picante, daqueles que fazem os anjos tossir de tanto rir e os santos coçar a auréola, desconfiados.
O último texto de Juma, publicado em Fevereiro de 2021, foi uma espécie de testamento satírico. Não falou de heranças, nem de despedidas solenes. Falou, como sempre, do essencial, tomates. Os tomates do Doutor Hélder Martins e as línguas dos cães da corte. Um clássico instantâneo.
Curiosamente, ou talvez não, o bom do Hélder Martins completa este mês 92 anos, lúcido, activo e sempre cidadão. Juma, que apreciava essas coincidências históricas, abriu a crónica assim, “Li e reli atentamente a missiva do Doutor Hélder Martins e só vi um vasto tomateiro a perder-se de vista…” E lá vinham eles, em catadupa, tomates bigs, maduros, pendurados dois a dois, naturais, desses que só um grande chef entende. O problema, dizia Juma, não era a produção, era compreender tomates.
Como compreendê-los, perguntava ele, sem agrónomos especializados em solanum lycopersicum? Talvez assim se evitasse que os melhores cultores do país fossem amordaçados pelos cães do palácio, depois de oferecerem os seus produtos ao Pe-Er. Porque, insistia Juma, há muitos tipos de tomates neste país, e cada um com a sua função. Quando chegarmos a esse nível, talvez passemos a rebater argumentos com argumentos, e não com latidos.
Juma Aiuba escrevia pouco. Nunca chegava aos três mil caracteres. Parecia obstinação. Porém, dizia sempre um pouco mais do que o essencial. Terminava as crónicas com um simples e eterno “Co’licença!”, que não era pedido de desculpa, era aviso prévio, agora aguenta.
Apagou a sua vela na flor da idade, aos 40 anos, em Nampula, cidade natal, vítima, ou não, de doença dessas que, de tão inofensivas, quase desmatam. Jovem demais para morrer. Velho o suficiente para incomodar. Facebookou ao longo de dois anos, lá pelas bandas dos rios dos Bons Sinais, mas foi entre 2018 e 2021 que atingiu plena maturidade literária e satírica. Nesse curto período, fez mais pela higiene mental deste país do que muitas campanhas institucionais bem financiadas.
Nunca aceitaremos as causas profundas do silenciamento. Sabemos, porém, que foi um gigante. Não pela estatura, mas pela audácia. Pela fineza. Pela coragem. Chamei-lhe, num texto de 2021, Juma, o Gigante Aiuba. E mantenho. Na sua rápida ascensão, despediu-se como viveu, irreverente, imprevisível, nas alturas. Como estrela cadente que cruza as pupilas colectivas e desaparece sem deixar rastos, excepto o clarão.
Os gigantes têm lugar reservado na eternidade. Porque o paraíso, tal como a democracia, não sobrevive apenas de solenidade. Se a leitura é alimento da alma, o esplendor celestial deve ser uma biblioteca onde cabem a sátira, a ironia, a paródia e o sorriso maroto, esse sorriso quase platónico que Juma dominava como poucos.
Soube depois, falando com amigos de Nampula, que ele usava o pseudónimo Maitololo, nome caseiro na língua macua. A palavra sugere mais de um sentido. Maitho significa “olhos” (sendo o singular niitho), enquanto ololo remete para “tolice”. Assim, se quisermos ler a expressão como “olhos da tolice”, diríamos Maitho oololo. E, se a entendermos como “olhos tolos”, a forma mantém-se. Curiosamente, a expressão é usada para significar que é difícil educar os olhos, porque, por vezes, cedemos à tentação de continuar a ver aquilo que já fomos ensinados a não fixar. Talvez aí resida uma das ironias mais finas do pseudónimo, um convite permanente à vigilância crítica sobre aquilo que vemos e escolhemos continuar a ver.
“Juma”, etimologicamente, é quem nasce numa sexta-feira. O nosso fez a sua Páscoa também numa sexta. “Aiuba” é nome de árvore gigantesca, capaz de atingir cinquenta metros, uma árvore que lembra uma lição simples, quem sobe, desce pelo mesmo tronco. Eis a metáfora perfeita para um cronista de múltiplas dimensões.
Lançou um livro em Nampula. Nunca nos perdoámos por não o termos lançado em Maputo, na nossa UP-Maputo, ali onde os livros fascinam os olhares, mas os estudantes raramente os compram. Ali, naquela instituição que ele criticava com rigor e respeitava com devoção. Achava que as universidades eram o último refúgio moral da sociedade moçambicana. Talvez ainda sejam. Talvez estejam apenas em greve moral.
Juma decepcionou-se profundamente com o papel de certos sectores religiosos no processo eleitoral. Hoje, muitos de nós guardamos reservas sobre as batinas que gerem comissões eleitorais, acometidas de pecados inconfessáveis. Para ele, as últimas comissões fizeram tudo menos contar votos. Foram mais ágeis a subtrair do que a adicionar. Se estivesse vivo, teria escrito sobre os cortes estratégicos e programados de energia durante a contagem nas mesas, sobre os meses necessários para apurar resultados e sobre os constitucionais que anunciam vencedores como vencidos e vencidos como vencedores. Teria, enfim, pedido, com ironia afiada, mais cidadania e menos malabarismo institucional.
E aqui, inevitavelmente, Juma teria feito uma pausa, limpado os óculos imaginários e comentado o episódio do camarada JL e o seu apelo para que “não se eliminassem os marimbondos”. Teria escrito algo assim, “relaxa, camarada Pe-Er Mangolê. Aqui, os marimbondos não se matam, convive-se com eles”. Fazem parte do ecossistema político nacional.
Em Moçambique, explicaria Juma, os marimbondos são património cultural não classificado. Não se exterminam, administram-se. Às vezes recebem cargos, outras vezes comissões, outras ainda viagens de estudo. São resilientes, adaptam-se a qualquer mudança climática, ideológica ou eleitoral. Sobrevivem a reformas, discursos inflamados e tolerâncias de ponto.
E deixaria um conselho fraterno ao Pe-Er do Atlântico, que veio para aqui passar férias, tentar ensinar este país a trabalhar é empreendimento de alto risco. Aqui, trabalhar é quase heresia. O normal é feriado, tolerância ou reunião preparatória da reunião que vai adiar a decisão. Mexer nos marimbondos, então, é imprudência diplomática. Eles conhecem bem os seus ninhos, sabem quem entra e quem sai e possuem uma memória institucional invejável. Não os matem, aprendam antes a falar a língua deles. Afinal, por aqui, às vezes há mais línguas do que bota e mais vespas do que argumentos.
Juma escreveria também sobre as manifestações, sobre a forma como um país inteiro passou a seguir comandos vindos das redes sociais. Teria produzido dezenas de crónicas suculentas. E, claro, teria escrito sobre mim mesmo, JF. Ter-me-ia satirizado por algum silêncio cúmplice, por certas prudências excessivas, por não dizer tudo quando devia. Porque Juma não perdoava ninguém, nem os amigos mais próximos, nem os mais distantes.
Não sei qual foi o melhor texto do Juma Maitololo. Todos eram irrepreensíveis. A nossa imprensa perdeu uma referência. A literatura ficou mais pobre. A Carta de Moçambique deve ter sofrido um abalo financeiro. Mas ele deixou seguidores como, por exemplo, Sérgio Raimundo, Armando Nemane, Arune Valy, Ortega Teixeira e uma vasta lista de talentos confirmados.
Moçambique tem dificuldade em conviver com a sátira plena, talvez por razões culturais, linguísticas ou políticas. Mas Juma mostrou que a paródia nasce da vida real, da adversidade e da seriedade mal encenada dos factos. Incomodavam-no as justificações infundadas, os números mágicos do recenseamento, os contentores que evaporam, os pagamentos duvidosos e essa tragicomédia permanente que faria Gabriel García Márquez pedir royalties.
Dizia ele que existia tanta bajulação que, por vezes, pareciam existir mais línguas do que botas para serem escovadas. E que já nem dava para ser gatuno em paz neste país, porque surgiam sempre os “donos da verdade” a dizer que era mentira, que era ilegal, que não era bem assim. Aqui pode-se ser tudo, jornalista, analista, músico, pastor, profeta, porém será sempre difícil ser um ladrão tranquilo. Sabia lá ele porquê.
Investigadores como Wilson Francelino, também já nas alturas, mostraram que o discurso de Juma se inscrevia no género polémico-humorístico, marcado pelo dissenso e pelo efeito surpresa, contribuindo para a democracia e para a cidadania. Omardine Omar, jornalista que esteve na Carta de Moçambique, escreveu sobre o vazio profundo e insubstituível deixado pelo colega. Ficou tudo registado no texto Um ano sem Aiuba.
Marcelo Mosse escreveu, de forma sentida, algo como isto, quando fundámos a Carta, era preciso encontrar cronistas que complementassem o noticiário. De preferência, uma voz nova, desamarrada das agruras da política, independente e armada de bom verbo e do poder voraz do sarcasmo. Juma Aiuba já escrevia no Facebook e tinha uma ninhada considerável de seguidores. Foi escolhido a dedo. De Quelimane, escrevia para o país, pintando de humor os actos da política quotidiana, descascando mentiras, denunciando incongruências e esmiuçando a avareza. Ao aceitar escrever na Carta, não era o jornal que lhe dava boleia na exposição mediática.
Depois, terminou a sua análise nos seguintes termos, foi a Carta quem se pendurou na bagageira de um jovem cronista com dotes já firmados, cuja produção literária conquistara o seu lugar de relevo no anedotário nacional. Juma Aiuba teve a sua quota-parte de responsabilidade na visibilidade que a Carta ganhou nesses dois anos de existência. Era um cronista exímio, digno de Areosa Pena, salvas as devidas distinções de estilo. Aliás, Juma construiu um estilo próprio, recriando a língua, brincando com as palavras e recorrendo, com mestria, ao linguajar popular. Era de leitura agradável, mesmo quando escrevia sobre temas cansativos, como o das “dívidas ocultas”. Um homem de grande imaginação. Um cronista de fina estirpe. Escrevia com prazer, como todo bom jornalista.
Cinco anos depois, Juma Aiuba continua a fazer muita falta. Tremenda falta. Porque este país continua a precisar de quem diga, com humor e coragem, aquilo que muitos apenas sussurram com medo. Onde quer que esteja, sabemos que já terá escrito múltiplas crónicas celestiais, provavelmente sobre nuvens mal geridas, anjos bajuladores e santos que prometem milagres sem orçamento. Terá escrito, igualmente, sobre São Pedro, que nos dá tanta chuva e inunda todos os políticos que ainda habitam na terra.
Cinco anos depois, e sem exagero, o nosso Maitololo leria em silêncio estas linhas do mais velho conterrâneo e aprovaria com um sorriso torto.
Agora, não há como terminar de forma diferente desse estilo jumaiano.
Co’licença.





