Há muita expectativa em torno do informe que será feito dentro de horas pelo Presidente da República, Daniel Chapo, por sinal o primeiro informe sobre o Estado Geral da Nação desde que assumiu o Palácio da Ponta Vermelha.
Entre o discurso inaugural proferido na Praça da Independência e os quase 12 meses nas lides do Executivo, há algumas zonas de penumbra que aumentam a expectativa e aguçam as analises dos que analisam e discutem a governação e o ciclo inaugurado por Daniel Chapo em 2025.
O fim de um ciclo governativo e o início de um novo é normalmente desafiante, principalmente quando não há continuidade dos processos governativos anteriores, ainda que o governo seja do mesmo partido (a FRELIMO). Chapo prometeu uma nova dinâmica e roturas em relação ao seu antecessor. Volvidos quase 12 meses, é altura de se analisar entre a discursiva e a prática, entre as promessas e as realizações, entre o sonho e a realidade.
Neste arcabouço complexo, tarda em aparecer o distintivo do novo executivo, talvez leve tempo, mas háuma expectativa e inquietação enorme por parte dos governados.
Em dez pontos, mostro algumas das coisas que espero ouvir, não como cidadão singular, mas como seguidor atento das dinâmicas acesas da nossa governação:
• Recuperação Económica – Depois do período negro das manifestações pós-eleitorais, o tecido económico corroeu-se ainda mais. Os seus efeitos ainda fazem-se sentir quase um ano depois. Desemprego, miséria, fome, prostituição e mendicidade são algumas das consequências desta corrosão social e económica;
• Combate ao despesismo – parece que a eliminação da posição/ cargo de Vice-Ministros surgiu como uma forma de cortar despesas. Porém não significou muito ao lado de várias outras nomeações e atribuições (como Secretários de Estado a título de exemplo) que pesam no orçamento e a conta do Estado;
• Combate a corrupção – A suposta existência de interferências cria a percepção de haver um governo paralelo e de figuras ocultas acima do governo do dia; e essa suposta existência mina sobremaneira essa luta contra a corrupção; argucia, coragem e astucia são precisas para eliminar os carteis, a máfia e as raposas que mamam na teta do estado. Instituições viciadas (CEDSIF, Tesouro, Autoridade Tributaria) – Laboratórios da corrupção e da captura do Estado. Executivo ainda a procura da fórmula para desinstalar a mafia instalada;
• Insurgência em Cabo-Delgado – Para além do rasto de devastação na província de Cabo Delgado, temos estado a assistir a um alastrar perigoso da insurgência para as províncias de Nampula e Niassa. Daqui a nada toda região norte estará numa situação incontrolável e com riscos elevados de divisão. E nisto vemos graves violações dos Direitos Humanos; A situação no TON é deveras preocupante e os números mortos e de deslocados cresce a cada dia;
• Raptos e assassinatos – Depois de um período de quase normalização da frequência dos raptos, parece que se conheceu um abrandamento, porém com algumas ocorrências meio isoladas que minam a nossa confiança enquanto sociedade e a segurança pública e privada; O Feminicídio e a violência contra a mulher e rapariga, estão naordem do dia, e espera-se uma posição clara e firme do executivo. As estatísticas não mentem, e os números são um espelho fiel da crua realidade -muitas mulheres e raparigas são violadas e posteriormente assassinadas perante um olhar impávido de uma maioria que finge não perceber;
• Linhas Aéreas de Moçambique – Muito se fala sobre a situação da LAM, e quanto mais se fala, mas aumenta o braço de ferro com as chamadas forças ocultas. Aumentou-se a frota (não se sabe a que custo nem os termos dessa negociata). O que sabemos e que somos pilotados e servidos por Ucranianos; Sobre as raposas no galinheiro, pouco ou nada se viu depois do discurso; um dos dossiers mais difíceis para o titular da pasta do transporte;
• Diálogo Nacional Inclusivo – bonito sob o ponto de vista formal, e coerente do ponto de vista discursivo, contudo foi reunindo condimentos para ser uma sombra de si mesmo que fugiu a proposta inicial. De participativo de muito, mas de inclusivo, me parece um nado morto, e os resultados irão me desmentir em caso de erro hermenêutico;
• Diplomacia Presidencial – O que mais ressalta nestes primeiros 12 meses de governação é a quantidade de deslocações ao exterior realizadas pelo timoneiro da Ponta Vermelha. Há uma perspectiva que assume as mesmas como necessárias para o restaurar da política externa e dos laços diplomáticos com actores chave, e há quem julga mero despesismo. Sobre as viagens, se analisarmos a questão numérica e os custos associados, são sim de elevado custo. Todavia, espera-se que a partir do segundo ano do seu reinado, alguns resultados comecem a surgir.
• Saúde e Educação – Dois sectores nefrálgicos e fundamentais. Paradoxalmente dos menosacarinhados. E sistematicamente varridos por crises de corrupção e gestão danosa. Saúdemoribunda e mal se sustenta sem arranjos e apoios externos. Educação, um reflexo de políticas e vícios falhados que se instalaram ao longo dos tempos. O desinvestimento, a fraca qualidade e a fraude sistemática grassam o nosso sistema de ensino público.
• Reconciliação e Estabilidade – Conseguiu-se estabilizar socialmente o país com o famoso aperto de mãos depois de meses de uma quase “haitiização da nossa pérola do índico. Economicamente do país está a viver uma incerteza: desigualdades alarmantes, pobreza em níveis assustadores, mendicidade, prostituição, criminalidade em alta. Uma bolha prestes a explodir. Na mínima chance e rastilho de pólvora, o fogo alastrará. E há quem lucra com isso!
Em suma, foi um primeiro ano de aprender a conhecer a casa, a terra, e fazer alguma sacha e adubação. Não creio que tenha havido um plantio consciente. Há, muito por ser feito, e ainda muito capim da governaçãoanterior nos campos da nova governação. As sementes só poderão germinar e crescer se e somente se houver liberdade, coragem e determinação. É preciso tempo, mas o próprio tempo pode ser um elemento fatal.





