Há uma sensação estranha de calendário oculto na política contemporânea. Diariamente, como se obedecessem a uma coreografia invisível, resurgem os nomes: Le Pen em França, Ventura em Portugal, Meloni em Itália, AfD na Alemanha, Bolsonaro no Brasil, Trump nos Estados Unidos.
E, em registos diferentes, Julius Malema na África do Sul, com o seu Economic Freedom Fighters. Não são equivalentes, mas compõem um quadro: a extrema-direita (ou populismos radicais) parece falar a uma mesma ansiedade global.
A questão que se coloca é: onde está a esquerda nesse palco? Por que razão, depois de um século de experiência, continua a tropeçar diante do óbvio? Walter Benjamin já advertia: cada ascensão do fascismo é sinal de fracasso da esquerda. Mas este fracasso não é apenas eleitoral; é também imaginativo.
Parece que esquerda pode ter perdido a capacidade de propor horizontes, reduzindo-se a reagir, denunciar, ironizar — ou, como diria Jacques Rancière, a confundir política com mera polícia, isto é, com gestão e vigilância do espaço social, em vez de abrir brechas para novas formas de emancipação.
A extrema-direita simplifica — e nisso reside a sua força. Oferece “respostas objectivas a problemas objectivos”, ainda que com soluções retrógradas ou perigosas. Trump promete “resolver guerras” em números, Ventura promete “acabar com privilégios”, Malema promete “retomar a terra”.
Como se vê, este movimento é conduzido por slogans, mas são slogans que falam directamente ao estômago, ao medo, à raiva.
A esquerda, pelo contrário, parece encastelada numa arrogância intelectual, supondo que as pessoas estão a ser manipuladas ou que lhes falta inteligência para discernir.
Essa atitude é um suicídio político: as pessoas sabem por que estão com raiva, e votar na extrema-direita é, muitas vezes, uma racionalidade dentro da sua experiência concreta.
David Harvey lembra que o neoliberalismo produziu uma geografia desigual que deixou cidades e regiões inteiras à margem, convertendo populações em sobrantes da globalização.
A esquerda, em vez de propor alternativas de redistribuição claras, muitas vezes refugiou-se em pautas de reconhecimento que, embora justas, não conseguiram responder ao mal-estar material.
Axel Honneth já insistira que a luta por reconhecimento não se sustenta sem redistribuição. É justamente nessa fratura que a extrema-direita opera: transforma frustração legítima em ressentimento dirigido contra minorias.
André Gorz falava da necessidade de uma política capaz de pensar além do trabalho assalariado tradicional, reconhecendo que a modernidade tardia fragmentava as formas de vida.
No entanto, a esquerda, não soube reinventar-se a partir desse diagnóstico. Continuou a falar como se os sujeitos colectivos do século XX ainda estivessem intactos. O resultado: discursos que não encontram eco no presente precário e hiperindividualizado.
Slavoj Žižek, com o seu habitual paradoxo, observa que muitas vezes a esquerda age como uma caricatura de si mesma, incapaz de transformar o descontentamento em projecto. Limita-se a ser a consciência crítica da sociedade, esquecendo-se de que as massas não querem apenas crítica: querem direcção, querem símbolos, querem promessa.
Chantal Mouffe, por sua vez, insiste que não existe política sem paixão, sem mobilização afectiva. A extrema-direita entendeu isso melhor: ela convoca paixões, ainda que reacionárias, enquanto a esquerda parece envergonhada de mobilizar afectos, presa ao discurso técnico e racional.
No Brasil, o caso de Lula é exemplar. A democracia resistiu ao bolsonarismo, mas o sistema segue corroído por corrupção, por estruturas que lembram o queijo suíço — cheio de buracos.
Em África – a pensar com Mbembe, isto é, os guettos do mundo -, a herança socialista revelou-se um fiasco em muitos países, não só pela violência interna (como no Camboja – no sudoeste asiático – ou na Etiópia de Mengistu), mas porque não soube reinventar-se nos moldes do século XXI.
Julius Malema surge como sintoma: à falta de uma esquerda inovadora, surge um populismo radical que fala de redistribuição mas repete a lógica da simplificação.
Talvez o erro maior da esquerda seja esquecer que as pessoas querem sentido tanto quanto querem pão.
Harvey aponta para a materialidade das desigualdades; Rancière para a necessidade de romper a ordem policial da gestão; Žižek para a urgência de converter crítica em acção; Gorz para imaginar novas formas de vida; Mouffe para a centralidade dos afectos.
O que falta é uma esquerda capaz de articular tudo isso em narrativa mobilizadora, capaz de dar corpo ao mal-estar sem deixá-lo cair nas mãos dos demagogos.
O nacionalismo regressivo, que sonha com culturas puras e muros soberanos, é delírio — mas delírio sedutor.
A esquerda, se quiser sobreviver, precisará voltar a seduzir. Não apenas com estatísticas ou moralismos, mas com imagens, horizontes, promessas.
Porque a política, no fundo, não é só sobre gestão do presente: é sobre a imaginação do futuro.





