A Ponta do Iceberg: Jornalismo, Poder e Ética em Moçambique
A semana começou com a notícia da detenção de um jornalista em Maputo, acusado de chantagem e extorsão a um empresário local. O caso rapidamente se transformou num espetáculo público: comunicados e versões contraditórias multiplicaram-se nas redes sociais e nos meios de comunicação. De um lado, o empresário acusa o jornalista de tentativa de extorsão; do outro, o jornalista denuncia uma encenação e um sequestro levados a cabo por agentes do SERNIC.
À primeira vista, poderia parecer um caso isolado, talvez até uma disputa pessoal. No entanto, este episódio revela algo mais profundo e inquietante — o grau de promiscuidade, dependência e falta de ética que caracteriza, em muitos casos, a relação entre jornalistas e figuras mediáticas, sejam elas empresários, políticos, artistas ou outros agentes públicos.
O jornalismo, que deveria ser o pilar da verdade, da transparência e da fiscalização do poder, tem perdido terreno para práticas duvidosas, onde interesses particulares se sobrepõem ao interesse público. Quando jornalistas se tornam mensageiros de grupos económicos ou políticos, ou recorrem à chantagem como instrumento de influência, a profissão perde legitimidade, valor moral e função social. Alguns profissionais acabam atuando como “carrascos jornalísticos”, transformando informações em instrumentos de punição ou extorsão, em vez de serviço público.
É pratica recorrente no nosso mercado, os jornalistas usarem o seu poder para extorsão ou chantagem, exigindo vantagens em troca de não publicar determinada notícia. Alguns profissionais da imprensa, ao invés de servir ao interesse público, atuam de maneira abusiva, punitiva ou manipuladora, usando a informação como arma contra indivíduos ou grupos, porque, muitas fontes tem o receio e medo de ter sua imagem ou reputação manchadas em praça publica, mesmo que tenham colaborado de forma legítima com os jornalistas.
O medo das fontes em relação aos jornalistas é uma realidade e revela como a relação entre jornalista e fonte nem sempre é equilibrada. Esse medo pode ter origens éticas, legais, sociais ou políticas e afeta diretamente a qualidade da informação que chega ao público.
São inúmeras as praticas corruptas na relação jornalista-fonte, com destaque para: Aceitar presentes, dinheiro ou benefícios em troca de cobertura favorável, Publicar informações fornecidas sem verificação, Extorsão ou chantagem da fonte, Cobertura parcial ou manipulada para favorecer a fonte, aceitar manipulação ou encenação da fonte ou até Omissão de erros ou correções.
Do mesmo jeito que os jornalistas adotam práticas antiéticas, muitas fontes de informação agem de também de forma corrupta, tentando manipular ou coagir os jornalistas para proteger interesses próprios. Há figuras públicas que procuram manipular a imprensa, comprando silêncios ou fabricando narrativas convenientes, criando desta forma um círculo vicioso em que a confiança do público nos media é corroída, e a fronteira entre jornalismo e oportunismo se torna cada vez mais ténue.
Quem trabalha no meio, sabe que são comuns os chamados “envelopes” para os jornalistas, com a finalidade de garantir que ele ou faça a cobertura de determinado evento, ou, que distorça a verdade numa determinada noticia.
O jornalismo, que deveria ser o pilar da verdade, da transparência e da fiscalização do poder, tem vindo a perder terreno para práticas duvidosas, onde interesses particulares se sobrepõem ao interesse público. Quando jornalistas se tornam mensageiros de grupos económicos ou políticos, ou quando recorrem à chantagem como instrumento de influência, a profissão perde o seu valor moral e social.
O episódio desta semana, portanto, não deve ser visto como um caso isolado, mas como um alerta urgente para repensar o estado do jornalismo moçambicano: a necessidade de uma autorregulação séria, de ética profissional reforçada e de independência face aos poderes económicos e políticos.
A actual revisão da Lei da Comunicação Social surge como uma oportunidade histórica para modernizar o quadro legal do jornalismo em Moçambique, fortalecendo a transparência, a ética profissional e a responsabilidade social dos meios de comunicação.
A revisão da lei, aliada a práticas jornalísticas éticas e independentes, é uma oportunidade para restaurar a credibilidade da imprensa, fortalecer a democracia e assegurar que o jornalismo moçambicano cumpra seu papel essencial de informar e fiscalizar o poder, servindo ao interesse público e não a interesses privados.
A revisão da Lei da Comunicação Social não é apenas uma atualização legal, mas uma ferramenta estratégica para redefinir padrões éticos, proteger a integridade do jornalismo e combater práticas corruptas.
Tenhamos coragem
Victor F.S. Nhatitima
Consultor I Gestor de Comunicação e Relações Públicas
Especialista em Gestão de Projectos Socias
Membro Fundador da APRPM – Associação de Profissionais de Relações Publicas de Moçambique





