Sobre a crescente e deplorável onda de violações e assassinatos de mulheres e raparigas, tenho a expressar, como pessoa, ser humano, cidadão e pai, a minha total abominação e repúdio mais profundo. Mas, mais do que isso, estes actos devem convidar a cada um de nós a uma reflexão e posterior acção colectiva e muito incisiva. É preciso uma acção forte, informada, posicionada e sem filtros.
Estes actos dizem muito sobre o estágio a que chegamos como pessoas, como seres humanos, como sociedade e como indivíduos que se consideram parte integrante do chamado eixo civilizacional.
O estágio assustador a que chegamos é, a meu ver, corolário de anos de desinvestimento na educação formal, da educação moral e cívica; de incentivo, promoção e liberalização de consumo de bebidas alcoólicas sem a devida supervisão e controlo, principalmente entre as camadas mais jovens; da proliferação rápida e cada vez mais visível das famosas “colombias a céu aberto” e outras “bocas de fumo” espalhadas um pouco por todo o lado. É também, reflexo da de um longo e paulatino processo de tentativa de objectivação, reducionismo e “coisificação” da mulher e da rapariga, que gera um entendimento de necessidade de exclusão, inferiorização e minimalismo a que se relega a mulher em vários círculos familiares, sociais e até políticos.
Como sociedade, fomos e somos permissivos, brandos e apáticos com esta onda nefasta que é o feminicídio. Fomos e somos cúmplices porque “ainda” não nos bateu a porta (a desgraça e o infortúnio) de ter um membro da família ou alguém muito próximo a nós na posição de vítima. É um silêncio tão ruidoso quanto as lágrimas e choros das famílias que hoje sofrem com a brutal perda de seus familiares; faz ruído aos mais sensíveis pois o silêncio perante o feminicídio diz mais sobre nós, e sobre o nosso estágio de apatia e desinteresse para com o próximo – como se, de certa forma nos tivéssemos demitido da nossa humanidade e racionalidade.
Institucionalmente pautamos pelo politicamente correcto e na grande maioria das vezes ficamo-nos por declarações de repúdio, uma e outra marcha, campanha pública, posicionamento colectivo das organizações da sociedade civil, petições e outras praticas que têm se mostrado contraproducentes diante deste mal crescente.
O quadro legal é no geral de um desenho bem composto e sólido, mas peca grandemente na sua operacionalização e pela inexistência de estruturas de apoio a nível de investigação e produção de provas fidedignas quer seja para condenar ou para inocentar os suspeitos.
Temos estado a assistir, em ao abono, da verdade, a um enredo enfadonho com rótulos de terror social. Os rostos desta tragédia (os perpetradores) tardam em aparecer e quando aparecem são protegidos por um sistema que parece pouco comprometido com a justiça para as vítimas; um sistema que finge não perceber a gravidade deste fenómeno hediondo e macabro. O silêncio das instituições, muitas vezes rima com uma cumplicidade e aceitação tácita da incapacidade criada e sustentada.
Precisamos de uma mensagem forte e de uma manifestação clara de repúdio por parte do executivo. Precisa-se sair da discursiva e dos pronunciamentos de praxe, para acções conducentes a uma maior penalização e condenação dos culpados.
Entre 2013 e 2015, a capital Indiana – Nova Delhi foi considerada capital mundial de violações e estupro. Estimava-se que, no pico das violações, uma (1) mulher a cada quatro (4) horas sofria estupro e/ou violação. Isto levou a consternação pública, social e política e a duras críticas ao governo indiano.
Foi levado a cabo, pelas autoridades competentes e equipes mistas, um trabalho de análise psicosocial para compreender o que motivou a prática de acções e, posterior acção policial, comunitária de base e sensibilização social para desencorajar e prevenir tais práticas.
Reconhecendo que os números até aqui trazidos pelas estatísticas, falam alto e não se devem ignorar. É nossa obrigação olhar para o que não podemos quantificar, mas que importa igualmente – a dor, o luto e o eterno vazio que as famílias e a sociedade irão sentir com a partida de seus entes queridos. Para cada assassinato um pouco de nós parte e não mais volta.
Olhemos para o tipo de sociedade que estamos a construir para as próximas gerações; pensemos nos traumas e cicatrizes que isto deixa nas famílias das vítimas; reflictamos sobre as sementes de normalização de alteração da ordem social, moral e cívica.
Ontem foi aquela rapariga daquela zona recôndita e que não sabemos quase nada sobre ela para além do nome; hoje foi esta criança e adolescente que rezava ali connosco; foi esta colega de escola ou de faculdade que saiu para estudar e não mais voltou.
As questões de reflexão são: (…) E amanhã quem será? Será que precisamos experimentar actos horrendos de mais violações e assassinatos para perceber que a barbárie não compensa e que este problema é nosso, é de todos nós e esta ligado a segurança de cada um de nós? Precisaremos experimentar dores mais profundas para nos engajarmos em movimentos que exigem uma accão consertada mais incisiva?
O caso recente de imagens de menores a praticarem um acto de violação colectiva a uma rapariga, chama atenção pela naturalidade e espontaneidade dos perpetradores que apesar de menores, têm todas as condições para crescerem e se tornarem violadores activos e metódicos. Aprenderam em algum lugar e ousaram replicar, normalizando algo abominável. Uma vez mais, nós, enquanto sociedade reagimos com leveza, limitando-nos a partilhas e debates nas redes sociais. E nada mais se fez (…). Mas esta é apenas a ponta do iceberg e uma pequena amostra da putrefação que habita em muitos de nós.
Basta o feminicídio.





