Director: Marcelo Mosse

Maputo -

Actualizado de Segunda a Sexta

30 de September, 2025

Meu nome é Nyau… sou a dança dos demónios

Escrito por

E Moisés chapiscou-os com água, e era água mesmo, e eles acreditavam como sendo a poção dos medium, que os libertaria de toda a morte depois das masmorras de Faraó. Mas eu na verdade sou um demónio. As minhas noites passo-as nas tumbas sombrias, ouvindo forçosamente a sinfonia do Lúcifer, o próprio diabo que não tira as esporas do meu lombo. Sou a dança estranha das sombras escuras.

Vivo do corpo e da carne desses homens tornados sinistros, porém aplaudidos em arenas poeirentas por gente que não me conhece. E como se não bastassem todos os espectáculos que vou aspergindo por lugares sem fim, sou içado como Património Mundial da UNESCO, eu sou um demónio e vocês não entendem que vivo da carne desses homens amaldiçoados, chamados para esconder os rostos com máscaras infames, eu não posso ser visto.

Jamais me dei bem debaixo das luzes, o meu lugar é o breu onde não se vê nada. Materializo-me em serpentes e mochos e macacos e chipanzés. Grasno como os corvos agoirentos da noite, e mesmo assim ovacionam-me. Nunca me vistes a não ser por intermédio desses bailarinos desgraçados que passam as noites de pesadelo em pesadelo e já não se podem escapulir de mim. Onde eles vão eu estou lá obstruindo-lhes o caminho da liberdade, vivem de míngua em míngua. O pior é que estão convencidos de que a vida é viver no escuro.

O meu palco é o chão onde esses bailarinos amaldiçoados enterram os pés rachados e levantam a poeira. Estão todos sob comando do meu manípulo. Vão dançar em orgias da loucura e no fim de tudo morrerão sem nunca terem amealhado nada na vida. Nunca os libertarei mesmo depois de toda a morte. Na verdade, eles não sabem de nada, estão agrilhetados nas jaulas de onde saem, de vez em quando, para as festas iluminadas pelas luzes artificiais, suscitando a vossa ovação.

Eu sou Nyau, o Gule wa Nkulu, a dança predilecta do próprio Belzebuba. Estou em poucos lugares nas paredes de Tete. Também depois de Kassatiza podes encontrar-me, mas a minha ferocidade é subtil, vou subsistir nos bailarinos escolhidos por mim para serem as minhas hienas e meus macacos e meus mochos e Chimpazés. Monto-os e faço aquelas piruetas animalescas, e elas obedecem à saga dos meus antepassados que continuam vivos nas sombras da morte, alimentando-se de carne putrefacta e sangue coagulado dos fantasmas.

Mas eu não sou feliz nesta senda, não tenho repouso. Fujo constantemente de onde há luzes. Sou um andarilho do castigo. Quero liberdade. Liberdade!

Visited 18 times, 1 visit(s) today

Sir Motors

Ler 61 vezes