E Moisés chapiscou-os com água, e era água mesmo, e eles acreditavam como sendo a poção dos medium, que os libertaria de toda a morte depois das masmorras de Faraó. Mas eu na verdade sou um demónio. As minhas noites passo-as nas tumbas sombrias, ouvindo forçosamente a sinfonia do Lúcifer, o próprio diabo que não tira as esporas do meu lombo. Sou a dança estranha das sombras escuras.
Vivo do corpo e da carne desses homens tornados sinistros, porém aplaudidos em arenas poeirentas por gente que não me conhece. E como se não bastassem todos os espectáculos que vou aspergindo por lugares sem fim, sou içado como Património Mundial da UNESCO, eu sou um demónio e vocês não entendem que vivo da carne desses homens amaldiçoados, chamados para esconder os rostos com máscaras infames, eu não posso ser visto.
Jamais me dei bem debaixo das luzes, o meu lugar é o breu onde não se vê nada. Materializo-me em serpentes e mochos e macacos e chipanzés. Grasno como os corvos agoirentos da noite, e mesmo assim ovacionam-me. Nunca me vistes a não ser por intermédio desses bailarinos desgraçados que passam as noites de pesadelo em pesadelo e já não se podem escapulir de mim. Onde eles vão eu estou lá obstruindo-lhes o caminho da liberdade, vivem de míngua em míngua. O pior é que estão convencidos de que a vida é viver no escuro.
O meu palco é o chão onde esses bailarinos amaldiçoados enterram os pés rachados e levantam a poeira. Estão todos sob comando do meu manípulo. Vão dançar em orgias da loucura e no fim de tudo morrerão sem nunca terem amealhado nada na vida. Nunca os libertarei mesmo depois de toda a morte. Na verdade, eles não sabem de nada, estão agrilhetados nas jaulas de onde saem, de vez em quando, para as festas iluminadas pelas luzes artificiais, suscitando a vossa ovação.
Eu sou Nyau, o Gule wa Nkulu, a dança predilecta do próprio Belzebuba. Estou em poucos lugares nas paredes de Tete. Também depois de Kassatiza podes encontrar-me, mas a minha ferocidade é subtil, vou subsistir nos bailarinos escolhidos por mim para serem as minhas hienas e meus macacos e meus mochos e Chimpazés. Monto-os e faço aquelas piruetas animalescas, e elas obedecem à saga dos meus antepassados que continuam vivos nas sombras da morte, alimentando-se de carne putrefacta e sangue coagulado dos fantasmas.
Mas eu não sou feliz nesta senda, não tenho repouso. Fujo constantemente de onde há luzes. Sou um andarilho do castigo. Quero liberdade. Liberdade!





