Director: Marcelo Mosse

Maputo -

Actualizado de Segunda a Sexta

16 de September, 2025

O Amor nos tempos dos transportes “Oliveiras”

Escrito por

(Em jeito de homenagem a Xitonhane/Transportes Oliveiras)

04 de Outubro de 1992. A paz acabava de ser chancelada em Roma. As assinaturas de Chissano e Dhlakama também simbolizavam uma oportunidade para o progresso do amor de Valdemar e Râmula, selado, num dia de Janeiro de 1982, na terminal de autocarros da cidade de Inhambane quando Valdemar partia de machibombo dos “Oliveiras” rumo a Maputo, a capital do país, onde passaria a viver e a prosseguir os seus estudos pré-universitário e depois a faculdade. A família também estava de mudança.

Durante uma década, em tempos de guerra, Valdemar e Râmula não se viram e do pouco que sabiam um do outro era de ouvir falar ou via postal. Nos últimos anos, antes da paz, e já com os sinais da sua aproximação, Valdemar deixou de receber notícias do seu amor. Neste período, Valdemar concluiu com sucesso os seus estudos e já se encontrava a trabalhar como economista numa instituição bancária. Nos seus cálculos já era tempo para constituir família e a paz de Roma dera a ele essa oportunidade.

Na manhã do dia seguinte ao acordo de Roma, Valdemar foi a terminal dos “Oliveiras” que se situava nas proximidades do Matadouro Municipal, no bairro da Malanga, e apanhou o primeiro machimbombo com destino a cidade de Inhambane. Valdemar, literalmente sem notícias do seu amor, partiu cego ao seu encontro.

No nostálgico trajecto da viagem, Valdemar revive que foi num machibombo dos “Oliveiras” que o seu pai conheceu o amor que se tornou sua mulher numa viagem que o levava a Inhambane, a “Terra da boa gente”, em meados dos anos 60, depois de quatro semanas no Paquete Moçambique, vindo da Metrópole e com destino a então capital, Lourenço Marques.

Para Valdemar era um bom sinal o facto de seus pais terem também selado o amor de ambos nos “Oliveiras”, o que era mais uma prova evidente de que ele era mesmo igualzinho ao pai. Se com o pai deu certo, terei a mesma sorte? Pensava Valdemar, enquanto escorria o seu olhar pelo verde da natureza das margens da estrada nacional.

Na paragem de Quissico, Zavala, Valdemar desceu do machibombo e ficou o tempo previsto a contemplar, do miradouro, a bela paisagem das Lagoas de Zavala. Na intensidade da troca de olhares com a natureza, a determinação de que logo que chegasse a cidade de Inhambane pediria a Râmula que se casasse com ele. Na despedida das lagoas, Valdemar acenou um “até breve”, imaginando que por lá passaria a lua-de-mel com a Râmula, o seu eterno amor. (Continua na próxima edição)

PS: No passado dia 5 de Setembro, a notícia da morte do senhor António Oliveira (Filho), vulgo Xitonhane, último gerente e filho do fundador da extinta transportadora de passageiros “Oliveiras” trouxe-me à memória histórias de amor que partiam e chegavam nos machimbombos desta companhia durante os anos em que ela operou (1954-2007) no Sul de Moçambique, incluindo os 16 anos de guerra que assolaram o país depois da independência.

Visited 20 times, 1 visit(s) today

Sir Motors

Ler 86 vezes