Depois da grande dissensão nacional relacionada com o resultado das eleições de 2024, que se traduziu em manifestações quase à escala nacional, mesmo mesmo quando tudo parecia estar a acalmar-se, eis que o mês de Julho, que habitualmente e a par do vizinho Junho, é o mês de bastante frio e este ano não foi excepção, nos traz, de novo, mais um pomo de discòrdia, mais um factor de divisão social: os tractores! Antes mesmo de se atingir a muito almejada – e bastante propalada pelo discurso oficial – reconciliação, os moçambicanos voltaram a bater-se forte e feio as cabeças e, nalguns momentos, de forma virulenta, destroçante.
Tudo começou justamente nos meados de Julho, quando a notícia não sentiu medo daquele frio cortante e fez-se à superfície! O governo ia adquirir tractores com carruagem para transporte de pessoas. Assim mesmo: sem roupagens, sem introdução, nem preliminares. Era uma decisão que já estava tomada e em execução; nada relevava para as autoridades, mesmo os actores do sector, menos os objectos da medida. Foi só decidir e…pá… entregar! E logo vieram as reacções em catadupa. Umas, as de sempre, viram no moving governamental um grande feito, que visava mesmo resolver o problema de transporte público, uma medida bastante proficiente, ainda mais por ter sido implementada cerca de seis meses após o arranque do novo ciclo – naquela linha do antigo chefe de que algo que se devia fazer em seis foi feita em apenas dois meses. Aquela linha que já conhecemos…
Muitos reagiram com silêncio, como muitas vezes também o fazem, em cima do muro.
Mas houve outros que tiveram uma reacção bastante demolidora, impiedosa, considerando a ideia como uma vergonha nacional, execrável; outros, ainda, chegando a apelidar as referidas máquinas de meios de transporte de lixo!
Só pouco depois desta heresia nacional é que se clarificou que se tratava de 390 unidades, sendo 100 tractores com atrelados e 290 autocarros. Os tractores, acrescentou-se, eram, afinal, para as zonas rurais de difícil acesso.
Uma explicação adicional que em nada não diminuiu a dissensão dos moçambicanos, porquanto acompanhada por orçamentos gravosamente empolados, absurdos, abomináveis. Pelo contrário, agravou ainda mais a indignação colectiva, uma vez que estava comprovadamente claro que aquele fenómeno habitual, impune e irrepugnante entre nós chamado diplomaticamente de sobrefacturação levava a potência três!
E, no seu estilo característico, os nossos governantes remeteram-se ao que muito bem sabem executar: o silêncio! A política do silêncio: a polêmica vai passar e tudo voltará à normalidade. Estratégia que entre nós tem sido exímia. Difícil é perceber como é que queremos construir a nossa pérola do Índico a comunicarmos tão pobremente e, em inúmeras situações, a nem sequer nos comunicarmos.
Entretanto, estamos a cerca de um mês depois que tanta tinta e saliva foi vertida para os quatro ventos e depois de vermos uns três tractores a seguirem pelo fim da nossa Eduardo Mondlane da capital e outros parcos autocarros, igualmente em número de três, a serem teatralmente entregues algures pelo país… nunca mais vimos, muito menos ouvirmos alguma coisa sobre o assunto. Parece um pouco estranho que tais 100 tractores e 290 autocarros estejam em locais invisíveis a olho nu, precisando-se de… vista armada. Muito estranho que não se fale, nem se mostre uma única “zona rural” a receber ou já a usar os tais. Uma única foto, ou um pequeno vídeo. Ainda que estejam num parque, armazém ou garagem qualquer. Mais estranho ainda, quando nem se diz quando é que todas essas máquinas estarão nos locais pensados.
Não será mais uma nyonga semelhante àquela das dívidas ocultas?
Mas… ainda bem que as máquinas ainda não se vislumbram, assim vou conseguir terminar a crónica que estou a escrever aos meus concidadãos de Xipadja a informá-los de que, depois de uma vida inteira a andarem em autocarros do Xitonhane com comodidade e até com música – até chegaram a ter o privilégio de um autocarro exclusivamente dedicado: “Maputo/Xipadja – directo e completo” , hoje, têm que dar um salto qualitativo, migrar para o tractor; e que, quando quiserem vir a Maputo, apanhem tractor até à vila e, só depois disso, é que devem apanhar autocarro…
Bem, bem, bem… Cadê os tractores da discórdia?
ME Mabunda





