A escrita é pura sublimação de pensamentos e sentimentos. Nela sem veleidade nem vaidade me encontro, me desencontro, me expresso, me conecto e desconecto. Nela e com ela, me permito pensar o “meu” e o “nosso” país de forma construtiva e englobante.
Nela, também me permito desalinhamentos e confusões internas, porque o acto de escrever por vezes conduz-nos a frustrações. E por falar em frustração, uma das maiores frustrações que um ensaísta pode experimentar, é viver num universo (país) em que não se lê. Quando não lemos, perdemos capacidade critica e reflexiva. Deixamos de respirar os aromas da liberdade, da humanidade e da existência.
Ao mesmo tempo que o espaço cívico vai se fechando, com narrativas e contra-narrativas, sinto-me privilegiado por fazer parte desta restrita família de colunistas residentes da Carta de Moçambique e poder de quando em vez deixar os meus reboliços filosóficos. Começou como um simples exercício de cidadania, sem mínima intenção de cá ficar. E depois virou um espaço de influência e uma terapia, um canal de contribuição para a nossa sociedade que clama por mudanças estruturais. Uma sociedade que lê pouco e às vezes nem lê; e quando lê não compreende; quando compreende, apressa-se em julgar e condenar.
Uma sociedade que se foi sedimentando à sombra de vários eventos sociais, políticos, económicos e históricos que determinaram o seu estágio actual. Sociedade que é fruto da aversão à critica que paulatinamente se foi estabelecendo e comandando nosso dia-a-dia. Sociedade que reflecte a constante politização da análise social; da institucionalização do saber, do activismo, do intervencionismo e da cidadania activa que deveria nos caracterizar.
Enfim, hoje escrever é um exercício de risco e, não escrever é um suicídio silencioso, principalmente quando nos consideramos parte do intervencionismo literário. Opinar (dependendo da orientação e direção) é um acto de pisar linhas previamente delimitadas. Pensar é um exercício de liberdade, embira se torna aos poucos um cárcere. Por isso há quem defenda que, por vezes, não pensar é uma saída válida para ter paz.
Mas analisando bem, ao longo da história, os que ousaram pensar, sair do padrão, desafiar status quo, romper paradigmas e visitar as abelhas, arriscaram-se a ser conotados e até vilipendiados. Quando ousamos pensar tornamo-nos ou direitistas, ou esquerdistas, ou centristas. Cada acto de pensar tem o seu preço. E como alguém uma vez disse: quem prova do fruto do conhecimento é expulso de algum paraíso.
E nesta busca incessante em deixar um pouco de nós, lançamos sementes para o futuro, pois quem planta palavras sempre colhe ideias e acções.
Entre aberturas e fechamentos, sou felizardo e sortudo por ver meus rabiscos publicados neste espaço que considero de domesticação e de democratização da informação.
Um espaço onde todos podemos discutir, respeitando as nossas diferenças. Admitindo, que ninguém é dono da verdade e que ninguém deve subjugar o outro por pertencer a determinada escola e ou tradição de pensamento.
Aqui, novos e velhos são aceites sem filtros, sem rótulos, sem estereótipos. O mosaico de letras, ideias, pensamento, opiniões e até discórdia faz deste o arco-iris um dos sinais mais coloridos da imprensa online.
Por isso, parabéns pela ousadia e pela pujança em criar espaços destes. Espaços de apologia ao debate de ideias e orgasmos intelectuais.
Que se combata a aversão ao diferente; as ideias díspares, as cores e paixões político partidárias e a todas as formas de perseguição e repressão porque no fim do dia somos todos moçambicanos e de certeza ninguém deseja mais que ninguém que sejamos sempre um exemplo do melhor que produzimos e representamos.
Neste espaço, tive a liberdade para me expressar e dar forma aos meus pensamentos. Tive a oportunidade de deixar de lado certos medos, certas limitantes e deixar no papel um pouco de mim. Tive medo sim, quando pelo ar algumas vozes inóspitas sussurravam o meu ouvido dizendo: “Miúdo tens de ter cuidado”; e enchi-me de coragem quando outras vozes diziam: “escreves bem; não deixe de escrever”.
Aqui encontrei coragem e força para vestir a farda e ser mais um soldado que usa o activismo da escrita para pensar, criar, direcionar e reinventar este país que não é mais nem menos meu, teu e de todos nós.
Nesta curta carta quero dizer obrigado a “A Carta da Semana” e parabéns pelo seu primeiro aniversário e, reafirmar o velho compromisso de usar desta arma para ajudar a enriquecer o espaço das ideias, do pensar, do construtivismo baseado na dialéctica, na lógica e na ciência.
Tive espaço para abandonar o pensar do “EU” e abraçar o “NÓS”. E, de forma holística traduzir o meu entendimento sobre o (s) processo (s) governativo (s) em processos sistemáticos, de cristalização da critica consciente sobre discursos, momentos, dinâmicas, atitudes e acções de todos para todos e que a todos afectam no fim do dia.
Antes que as sirenes toquem e as cortinas se fechem, termino a carta na esperança de num futuro breve voltar a acção e escrever sem interferências, sem condicionalismos e sem qualquer tipo de pressões.
Termino a carta para “A Carta” com um grande Khanimambo, koxukuro, Notamalelane, Tatenda, Bonguile … e um até já. Certo que farei desta saudade a minha maior felicidade.
“Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir.” — George Orwell





