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5 de August, 2025

Moçambique e o Novo Pacto Global para o Desenvolvimento (IV): da Retórica à Acção

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Foi Judite quem, naquela tarde, chegou primeiro à casa de Maria Tondhosa. Sentou-se no chão da varanda, como quem espera que alguma coisa aconteça – mesmo que não saiba o quê. Samira veio logo depois, com o seu caderno. Celso apareceu mais tarde, com o ar sério de quem tem perguntas difíceis.

A vela já estava acesa. Maria Tondhosa não disse uma palavra. Apenas fechou os olhos, e o ar voltou a mudar de espessura. Quando Mpoyombo falou, sua voz parecia vir de dentro da terra.

— A independência não foi um presente. Foi uma luta longa. Mas quando finalmente chegou, trouxe com ela uma pergunta antiga:
“Agora que somos livres… o que vamos fazer com essa liberdade?”

Celso sorriu:

— Vamos construir um país, não é?

— Sim. Mas um país é uma escolha. Ou muitas escolhas. E Moçambique estava diante de uma encruzilhada.

— Que encruzilhada? — perguntou Judite.

— Havia vários caminhos. Um dizia: vamos reconciliar e incluir todos, mesmo os que não lutaram connosco. Outro dizia: vamos abrir-nos ao mundo, aprender com todos, sermos africanos e cosmopolitas. E havia um terceiro: vamos fazer uma revolução total, começar tudo de novo, destruir o velho e construir um homem novo.

— Foi esse que escolheram, não foi? — perguntou Samira.

— Foi. Com esperança, coragem… e com pressa. A FRELIMO, que liderou a luta, assumiu o poder. E decidiu seguir o caminho da revolução socialista. Inspiraram-se em países como a China e a União Soviética. Acreditavam que o colonialismo tinha corrompido tudo, a educação, a religião, a família, e que só se podia construir Moçambique limpando tudo primeiro.

Celso cruzou os braços:

— Mas isso não era bom? Um país justo, sem ricos nem pobres?

— Era um ideal bonito. E havia boa intenção. Mas quando se tenta apagar tudo, às vezes apagam-se também as vozes que deviam ser ouvidas. Os partidos foram proibidos. A imprensa foi controlada. As religiões foram empurradas para o canto. E muitos que não concordavam… foram silenciados.

Judite estava atenta:

— Isso quer dizer que quem não pensava como a FRELIMO era visto como inimigo?

— Muitas vezes, sim. Os que discordavam eram chamados de “reaccionários”. Alguns foram presos, outros fugiram. Outros ainda fingiram concordar, para sobreviver.

— Mas não havia outra maneira? — perguntou Samira.

— Havia. Havia o caminho do cosmopolitismo africano, que Mondlane parece ter sonhado. Um país de todos, onde a tradição e a modernidade conversavam. Onde ser africano não era o contrário de ser livre, e onde discordar não era trair.

Celso estava calado. Depois falou:

— Então… a escolha foi feita. E o país seguiu.

— Sim. Mas toda a escolha traz sombras. O país cresceu com medo do seu próprio espelho.
E quando começou a guerra civil… foi também o resultado de não termos conseguido imaginar um país onde se pudesse pensar diferente.

Samira escreveu no caderno:

O sonho era grande. Mas o medo de perder o controlo era maior.

— E havia também dor — disse Mpoyombo. — Porque a guerra não acabou com a independência. Começou outra guerra, entre irmãos.

Judite falou baixinho:

— Então, não fomos livres?

— Fomos livres… de Portugal. Mas ainda não sabíamos ser livres uns com os outros.

O espírito calou-se. Maria Tondhosa abriu os olhos. Mas desta vez não pareceu cansada. Apenas triste. Como quem se lembra de uma canção que já não se canta.

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