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7 de July, 2025

Voltar a Ser Moçambique: um Convite à Reflexão sobre o Jubileu

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Voltar a ser, porque no passado o fomos. No passado, tínhamos uma mística, um sonho e uma ideia de país, onde comungávamos de um ideal, acreditávamos e lutávamos cegamente pela nossa pátria amada. Nalgum momento, esfumou-se e asfixiaram-se as ideias, os sonhos e capturou-se o Estado, deixando resquícios de saudosismo.

Precisamos de voltar a ser novamente um país normal. Por normalidade, entendo o funcionamento pleno das instituições, o compromisso e o empenho do governo e dos governantes para com os seus; o respeito pelas autoridades, pelas leis e pelo ordenamento jurídico. E, por fim, não menos importante, o respeito pela dignidade da pessoa humana, com o resgate e a restauração da ética social e profissional.

Muitas boas coisas fomos perdendo ao longo do tempo, acreditando que não teriam impacto negativo na nossa vida. Porém, com a saturação social, veio à tona um projecto inacabado e prestes a desmoronar, assim como todo o lixo que fomos depositando debaixo do tapete.

Permitimos que o bicho da corrupção e da ilegalidade entrasse no nosso quotidiano e ocupasse um lugar privilegiado. Aceitámos o mau funcionamento das instituições como normal. Tolerámos que o governo, que nós próprios elegemos em cada sufrágio, nos relegasse ao segundo, terceiro e até décimo plano na linha das prioridades. E, por fim, deixámo-nos capturar por promessas e narrativas de um futuro melhor. Um futuro que nunca se concretizou e que, na verdade, rima com um passado de opressão e exploração, mudando apenas as máscaras dos exploradores numa antítese perfeita: pretos a explorarem pretos, hipotecando as gerações futuras e tirando o brilho das flores que nunca deveriam murchar.

Os processos de construção de um país são complexos. Levam tempo, engenho e exigem muita paixão, entrega, abnegação e responsabilidade para colocar os interesses do país acima dos interesses individuais.

Antes mesmo de vermos curadas as feridas do colonialismo, que além de pilhar, dividiu-nos e ensinou-nos a odiar o nosso irmão, fomos varridos pelo conflito armado, vulgarmente conhecido como guerra dos 16 anos.

Depois de Roma, recebemos uma mensagem de paz e esperança. Um convite à reconciliação, à reconstrução e à fraternidade. E, como povo cheio de sonhos, aceitámos e abraçámos essa mensagem. Era, na verdade, tudo o que ansiávamos após um período de desumanização, barbaridade e devastação. Alguns, os chamados libertadores, que emprestaram sua juventude em momentos cruciais do país, tomaram o protagonismo na luta pelas benesses, pelos privilégios, pelo controlo das riquezas e por posições de influência. Era uma espécie de cláusula de direitos históricos, válida até hoje para seus filhos, netos e bisnetos.

Pecamos por excesso de optimismo e alguma inocência ao acreditar que o jugo nacionalista seria diferente do jugo imperialista.

À semelhança do ‘Mapa Cor-de-Rosa’, desenhado e pintado na Conferência de Berlim, deve ter havido um momento em que se redesenhou a cartografia dos recursos de Moçambique para posterior partilha em fatias. Talvez propositadamente nenhum registo tenha sido feito e em nenhum anal se documentou esse momento. Talvez por isso insistimos em discursos de governação por turno e por zona, dividindo o país em tribalismos e regionalismos sem sentido. Talvez por isso hoje afirmamos que as línguas nacionais podem dividir a nação. Talvez nem nós mesmos acreditemos no que defendemos. Talvez precisemos refundar o nosso país e reinventar o nosso ideal.

Por outro lado, o processo de desconstrução e destruição do legado independentista não observou critérios lógicos. Aliás, não sei sequer se é possível evocar critérios para justificar acções tão nefastas e corrosivas.

Foi necessário bater no fundo como país para acordar? Talvez sim, talvez não. A verdade é que lá chegámos, e vimos que a nossa cumplicidade, ingenuidade e falta de maturidade nos levaram ao quase abismo. Fomos cúmplices inocentes. Fomos espectadores apáticos e deixámos o barco quase afundar após múltiplas colisões com os icebergs da desgovernação.

Talvez tenhamos chegado ao fundo do poço no momento certo. E, ironicamente, questiono: existirá mesmo um bom momento para se bater no fundo?

Mas a estrutura estatal já não é a mesma. Sofreu abalos e sente que pode desmoronar a qualquer impacto social ou político.

Já não se trata de reprimir com a força das instituições, nem de ceifar vidas humanas ou insistir em martelar números, escondendo a verdade e ignorando a vontade popular. Trata-se, sim, de pensar colectivamente e desenhar um ideal de país em que todos possam ser ouvidos e sentir-se parte da reconstrução nacional.

No artigo Re-significar Moçambique’, escrevi: ‘Neste exercício de re-significar, precisamos buscar as referências e as bases da criação do nosso Estado, o Estado que outrora foi motivo e objecto de orgulho e júbilo. Um Estado onde o bem-estar social e o respeito pelas liberdades individuais e colectivas são assegurados; onde a educação é um instrumento de edificação e emancipação e não uma fonte de opressão e destruição; e onde os serviços mais básicos estão disponíveis para a larga maioria.’

Depois, abordei a necessidade de abandonarmos a ideia antiga de que o país pertence a um grupo que, de tempos em tempos, faz a rotatividade entre sul, centro e norte. A ideia de que as benesses devem ser reservadas exclusivamente àqueles que lutaram pela libertação do jugo colonial. Se um dia o povo se rebelar para se libertar dos próprios libertadores, o processo será violento e traumático.

O sol de Junho que entoamos no nosso Hino ainda brilha, ainda que timidamente. Seus raios ainda sonham com dias melhores é um sol que precisa ele mesmo de calor para ser sol. Às vezes, vai a reboque da chama da unidade nacional, que ora acende, ora apaga, mas não une nem aquece — nem do Rovuma ao Maputo, nem do Zumbo ao Índico.

Os ventos independentistas sopram um pouco por todos os pontos cardinais, mas é de Cabo Delgado que clamam pelo fim da carnificina causada pela insurgência. São ventos carregados com a ideia de uma libertação, renovação e prosperidade muito ambicionada e anunciada, mas ainda pouco alcançada. São ventos com cheiro a gás lacrimogéneo, à pólvora, à insensibilidade e à crueldade desenfreada daqueles que nos deveriam proteger, mas preferem proteger os interesses que consagram os chamados vencedores que, na verdade, são os piores perdedores que a história não celebrará.

Libertadores, não se esqueçam da nossa dor. Não se esqueçam de voltar.

Cada corpo tombado seja em que circunstância for, é mais do que um número estatístico. É uma vida interrompida; uma família amputada e um sonho adiado.

Não se esqueçam de voltar a ser o que já foram. Não é um favor que nos fazem. É o mínimo que os bons filhos devem fazer pelo país que os viu nascer.

A Luta Continua!!!

 

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