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4 de July, 2025

John Kachamila: Do Vale do Rift ao Sonho de Liberdade

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Há vidas que são como rios, nascem discretas, em lugares recônditos, mas ganham força à medida que avançam, atravessam vales e montanhas, alimentam a terra por onde passam e desaguam deixando um legado. Assim foi a vida de John Kachamila, filho do Niassa, esse Niassa remoto e pouco conhecido, combatente da liberdade, dirigente, empresário e contador de histórias. Muitas e sábias histórias.

Essa analogia faz parte de muitas das conversas dos últimos tempos com o amigo John William Kachamila que agora habita nos páramos da eternidade. Uma espécie de tertúlias que envolviam, amiúde, sua esposa Geórgia, camaronesa naturalizada, e com uma longa passagem por Paris. Eles sonharam o hotel mais elegante e requintado de Metangula, a bem da verdade, um dos maiores investimentos privados dos últimos anos, na região de Metangula. Um filho do Niassa deveria deixar uma obra no seu distrito e isso ressignificava a força das águas do lago que o viu nascer, e que ele amou acima de tudo e todos.

Nascido em Janeiro de 1946, em Lunguawa, no distrito do Lago, Niassa, Kachamila é um exemplo luminoso de como a grandeza pode brotar das margens mais afastadas do país. A sua infância decorreu no seio de uma família extensa, como tantas famílias africanas, sobre as quais ele próprio escreveu no seu livro. As famílias africanas são muito largas, mas, infelizmente, os nossos antepassados nunca escreveram. Este o argumento que cativou plateias e provocou admiração quando lançou o livro nos EUA.

Igualmente, no seu jeito algumas vezes afável, outras mais mordaz, sem nunca deixar de ser cordial, ele se recordava desse lançamento do livro além fronteiras. Com a acutilância de quem pensa fundo e a elegância de quem sabe ouvir, voltava, vez após vez, ao tema que mais o inquietava: a escassez de obras sobre as raízes e a oralidade moçambicana. Era aí que sua alma se agitava. Confesso, concordava sempre com o que ele dizia, mas, nem sempre, entendia a sua preocupação. Desbravar as grandes narrativas do Niassa continua sendo um imperativo. John era um homem com esse jeito discreto de ser; alguém com muitas reservas que roçavam até ao segredo e a coragem para o silêncio. Um homem de uma soberba ecléctica e monumental cultura geral e tradicional.

John Kachamila emigrou cedo para a Tanzânia. Seus pais abandonaram o Lago e procuraram refúgio na vizinha Tanganica. Os ventos da mudança sopravam nessa terra de Nyerere que chegara ao Uhuru, liberdade e independência, e não haviam deixado indiferentes muitas famílias a sul do Rovuma. Convém, igualmente, recordar que não fora, somente, a ascensão do pais vizinho a autonomia, mas, e sobretudo, a forte e dominadora influência da igreja anglicana, que se instalou em 1982, na região da actual província do Niassa.

Mesmo tomando em consideração que a diocese de São Bartolomeu foi apenas estabelecida em 1964, essa missão desempenhou um papel significativo no desenvolvimento social, religioso e educacional nos locais. Há relatos consistentes que atestam, sem margem para dúvidas, que os níveis de ensino oferecidos à população local superavam, em qualidade e rigor, os das instituições de ensino oficiais ou indígenas da época.

Os anglicanos que se estabeleceram no Niassa, nos primórdios, convém recordar, foram William Percival Johnson e Charles Janson. Não admira então que John Kachamila tivesse herdado, por exemplo, o nome William que nem era comum entre os locais. Da mesma forma John poderia ser comum na Niassalândia, mas não o era localmente. Ele sempre cogitou essa possibilidade. Muitos dos jovens dessa época foram adquirindo nomes semelhantes aos dos missionários anglicanos. Nisso até somos pródigos.

Na Tanzânia, John frequentou diferente escolas, em particular o college St. Joseph, em Mbeya, e em Dar-es-Salam para os estudos superiores. Fez o ensino nas línguas Kiswahili e Inglês e só aprendeu e lidou com a língua portuguesa mais tarde. Igualmente, passou pela Inglaterra, Londres, entre 1983 e 1984, no Imperial college of Mining. Este percurso o aproximou do mundo e bebeu outra visão e engodo pela política e pelo empreendedorismo.

Retomo ao ano de 1963, quando John tinha apenas 17 anos de idade, e se juntou à Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), abraçando a causa com a disciplina e a coragem que se tornariam a sua marca. Participou da luta armada nas matas do Norte, levando consigo a esperança dos que ficaram e a determinação dos que marchavam. Soube atender ao chamado maior da sua geração, a luta pela independência e granjeou simpatias desde o começo. Essa consciência de combatente, do silêncio e descrição dos registos e tempos, ensinou-o a falar em público, ou de forma mais privada, só na oportunidade e tempo certos. Foi, convenhamos, o estandarte que o acompanhou ao longo de toda a vida. Era sepulcral em assuntos que continuam tabu, sobretudo, dos tempos mais tenebrosos da luta de libertação e das crises internas da Frente.

Ao longo da sua carreira, Kachamila também teve uma importante experiência internacional por recomendação tanto de Mondlane como de Simango, seus superiores directos. Para além dos estudos na Tanzânia, teve a oportunidade de passar 10 anos na Jugoslávia, onde concluiu estudos superiores em geologia e minas, consolidando a sua formação técnica e cultural. Esta formação ajudou, enormemente, na sua carreira profissional e de liderança política, bem como no seu estabelecimento no sector empresarial e diplomático.

Adorava falar sobre o seu livro e dizia que estava tudo explicado quando aprofundávamos algum assunto mais complexo. Falamos sobre a luta e sobre como ele se relacionou com Eduardo Mondlane e Uria Simango, de quem fora secretário. Conheceu os dois líderes com os pormenores e detalhes de quem conhece um familiar próximo.

Entendia as opções políticas e argumentava que cada um deles partilhava o ideal de unidade na frente e o engajamento de todos na luta. Referiu-se a Celina Simango como a fundadora da liga feminina da Frente de Libertação que, mais tarde, seria a génese e a percursora do feminismo durante a luta e no pós-independência. Mas, John era essa biblioteca que não coube no seu único livro. Ficou muito por explicar e memórias por partilhar.

Terminada a guerra, e quando Moçambique finalmente alcançou a independência em 1975, John Kachamila não voltou as costas à nova pátria. Nem teria como fazer. Ele contribuiu na edificação do Estado, trazendo ao serviço público a mesma energia que tivera no campo de batalha. Em 1976 assumiu a pasta de Ministro dos Recursos Minerais, sob liderança do Presidente Machel, outra emblemática figura para ele, e de quem guardava histórias muito pessoais. Ainda, como membro do Governo, assumiu a paste de Ministro da Coordenação Ambiental, na primeira abordagem que o pais ensaiou para lidar com matérias sobre o meio ambiente e na gestão da biodiversidade e dos diferentes ecossistemas espalhados pelo interior e pelas orla marítima.

Como Ministro dos Recursos Naturais, Kachamila tirou proveito da sua formação em Geologia para conduzir as primeiras pesquisas geológicas do novo Moçambique independente. Não se limitou a catalogar os recursos minerais existentes, georreferenciou-os, organizou-os e, com lucidez rara, lançou os alertas sobre o imenso potencial mineiro do país. É certo que, durante o período colonial, o governo português já havia identificado alguns dos principais recursos do subsolo. Mas coube aos novos Estados, nascidos da luta e da utopia, o direito de legislar, regulamentar e, enfim, buscar explorar as riquezas que lhes pertenciam por soberania e história. Este foi o momento em que Moçambique precisava afirmar a sua soberania sobre o seu subsolo, negociando com o mundo e cuidando para que as riquezas naturais se convertessem em benefício para o povo.

A sua liderança no governo não se limitou à defesa dos interesses económicos do Estado, pois, ele foi sempre acompanhado por uma visão humanista, recordando o provérbio do Niassa. A água do rio não pertence a quem a vê primeiro, mas a quem dela cuida para todos. As negociações para a exploração do gás natural de Temane, em Moçambique, iniciaram-se antes dos anos 2000, com a assinatura de um Acordo de Produção de Petróleo (PPA) entre o governo moçambicano, a Sasol e a Companhia Moçambicana de Hidrocarbonetos (CMH). John Kachamila jogou um papel importante ao iniciar as negociações com os EUA, Japão e com os parceiros multilaterais.

No período posterior à política activa, dedicou-se à vida empresarial, continuando a gerar oportunidades e a mostrar que a iniciativa privada poderia e deveria andar de mãos dadas com o desenvolvimento do país. John Kachamila tinha um faro empreendedor acima da média. Na sua descrição e contactos no exterior estabeleceu contactos e parcerias e aproximou o empresariado internacional para que fossem feitos investimentos em Moçambique. Via essa aproximação como fundamental para capitalizar Moçambique de forma mais homogénea. Demonstrou que era possível servir a sociedade em múltiplas frentes, com coragem no campo de batalha, com rigor no governo, e com criatividade no mercado. Os resultados podem não ter sido mais profícuos devido aos longos períodos de conflito armado.

O seu amor por Moçambique e pela sua própria história familiar, porém, nunca esmoreceu. Consciente de que “se nós morrermos, a história também morre”, decidiu, ele próprio, deixar esse testemunho por escrito e o divulgou por diferentes partes do mundo. Assim nasceu o livro Do Vale do Rift ao Sonho da Liberdade: Memórias de Lissungo, publicado, inicialmente, em português e, mais tarde, em inglês, From the Rift Valley to the Dream of Freedom.

No seu livro, lançado em Washington D.C., Kachamila partilha não apenas a sua trajectória pessoal e política, mas também memórias íntimas da família, crónicas do país e lembranças marcantes da luta armada. Com esse gesto, cumpria a nobre missão de resgatar e registar aquilo que tantas vezes se perde no silêncio da oralidade. Repetia, com a convicção de quem sabe o peso da memória, que a história da luta de libertação, a história de Moçambique e, sobretudo, os contos da tradição oral moçambicana deviam ser urgentemente fixados por escrito. “É um dever”, dizia, “para com os que vieram antes e para com os que hão de vir”. E, de fato, assim o é.

É essa combinação rara de coragem, visão e memória que faz de John Kachamila uma das figuras notáveis de Moçambique. Ele encarna, plenamente, o provérbio, “o sol nasce para todos, mas brilha mais para quem não tem medo de caminhar”. Do Lago Niassa ao Vale do Rift, da luta armada às negociações ministeriais, da empresa privada ao livro de memórias, caminhou sempre com passo firme, iluminando caminhos para outros.

O seu legado lembra-nos que mesmo das províncias mais esquecidas podem surgir gigantes, e que a história não se escreve sozinha, precisa de homens como Kachamila para lhe dar voz e corpo. (X)

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