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24 de June, 2025

É preciso coragem para ouvir o que disseram Hélder Jauana e Inês Raimundo sobre a Nação Moçambicana

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Estamos habituados a ouvir os pensamentos de Ngoenha, Lima, Macamo, Castiano ou ainda Mosca, quando se trata de falar de Moçambique, da FRELIMO e da governação. Estes intelectuais são considerados como únicos académicos com opinião legítima, quando se trata de externalizar a realidade política e social moçambicana. A eles, parece que lhes foi concedido espaço de escuta e, sobretudo, protecção institucional para dizer o que pensam, sem o medo de serem silenciados, deslegitimados ou apagados do debate público.

Tal como se diz no provérbio numa das línguas bantu que falo: A Mhunti va yiba na yahani mahika traduzindo: A gazela ataca-se ainda ofegante, o que significa que devemos aproveitar o momento. Mas na passada semana vimos algo diferente. A comemoração dos 63 anos da FRELIMO trouxe não penas aplausos e memórias celebrativas, mas também vozes que ousaram tensionar o presente. Entre elas, destacam-se as intervenções do sociólogo Hélder Jauana e da geógrafa Inês Macamo Raimundo, dois intelectuais moçambicanos que, a partir de campos distintos, ofereceram leituras corajosas e críticas, necessárias sobre os 50 anos da nossa independência. Ambos disseram o que muitos pensam, mas poucos ousam verbalizar em espaços institucionais dominados por discursos de exaltação e unanimidade, principalmente quando convidados por quem detém o poder e controlo de vozes, pensamento e corpos.

O impacto foi imediato, mas não foi igual para ambos e isso também merece ser pensado, afinal, não foram recebidos da mesma forma. Enquanto a fala de Jauana repercutiu amplamente nas redes sociais e na mídia, com trechos viralizados e intensamente comentados, a intervenção de Raimundo passou quase despercebida, apesar de, do ponto de vista teórico, a fala desta geógrafa oferecer bases sólidas para uma reflexão estratégica sobre a vida do país.

O que explica esse contraste? A forma, sim. Jauana dominou o espaço com uma oralidade marcante, com uma retórica eficaz ao falar pausada e ritmicamente claro, emocionante e com um propósito. Usou o que se poderia chamar de body language, uma linguagem nua, que fala ao coração e à consciência, sem rodeios, uma linguagem directa, sem ornamentos. Não suavizou contradições vividas no partido no poder. Denunciou, por exemplo, que a FRELIMO já não representa o povo camponês nas suas posições de liderança (como se entoa no Hino do Partido: AVANTE OPERÁRIOS CAMPONESES UNIDOS CONTRA A EXPLORAÇÃO SOCIALISMO TRIUNFARÁ). Para um partido que se apresenta como “partido de massas”, é uma contradição gritante. Será que é algo compreensível para os membros deste partido ou será uma de muitas outras coisas que se vivem neste partido e se finge cegueira.

Mais que isso, foi além da crítica política: “o partido não é feito só de pessoas boas”, disse, Jauana, rompendo com o tom institucionalizado de pureza partidária. Para ele, há silenciamento, há exclusão de vozes e há uma violência simbólica interna que mata identidades. Essa fala toca num nervo exposto do projecto nacional: como podemos construir uma nação forte se não reconhecemos e nem acolhemos a diferença?

Já Raimundo, embora tenha oferecido uma intervenção valiosa, com pistas fundamentais para pensar o futuro, escolheu um caminho menos directo. Falou de migrações, um tema legítimo, mas que, isolado, que por si só não dá conta das possibilidades analíticas que a Geografia oferece. Sua fala foi repleta de conceitos que, se aprofundados, nos dariam ferramentas poderosas para pensar o país: território, espaço, lugar, paisagem, região, relações de poder, disputas pelos recursos, direitos dos cidadãos e muito mais. Mas talvez tenha faltado tempo — ou talvez tenha faltado uma aposta mais firme, em conectar teoria e a urgência política. Fica a dúvida: houve intencionalidade na fala ou apenas prudência? Será que foi uma tentativa de dizer sem “ferir”, de expor sem “desagradar”? Como se fosse possível, em Moçambique hoje, falar do espaço sem tocar nos sistemas de acções e nos sistemas de objectos que o produzem e, nessa mesma relação, controlam esse mesmo espaço.

Na tentativa de manter um tom técnico, a geografia apresentada ali pode ter recuado diante do seu próprio potencial político. Mas como bem nos ensinou Milton Santos, não existe neutralidade no processo de produção do espaço: o espaço é resultado de relações de poder, atravessado por disputas, exclusões, violências. Falar de deslocamentos, sim, é importante — mas desvincular esse fenómeno de categorias como território, lugar, região e paisagem é perder a chance de acender o debate geográfico na arena política onde ele mais se faz necessário, ou achamos ser a mesma coisa, um deslocamento causado por eventos extremos, e outro causado por conflitos militares e ou armados.  Embora deslocadas por causas diferentes, quando concentradas no mesmo lugar, as pessoas precisam de serviços de saúde, educação, emprego, lazer habitação e muito mais, e nem sempre o local de eleição destes deslocados consegue responder a tudo isso. A Geografia pode sim ajudar aqui e em outras coisas.

É injusto comparar as duas falas apenas pelo impacto mediático, até porque não tive toda a fala dos mesmos. Mas é preciso reconhecer: Jauana entendeu o momento. Falou com a coragem e a clareza que o público precisava ouvir. Raimundo trouxe densidade e complexidade, mas numa chave que exige escuta especializada e mais tempo para decantar. Ambas as vozes, no entanto, são absolutamente necessárias.

O que me fica dessas intervenções é a certeza de que Moçambique precisa, com urgência, de pensamento crítico nos seus espaços de decisão e de celebração. Não se constrói uma nação adulta com silêncio, nem com unanimidade forçada. Precisamos de intelectuais que desafiem o poder, que rasguem o véu do discurso oficial e que tragam novas perguntas, especialmente quando o discurso dominante insiste em oferecer sempre as mesmas respostas.

Mas precisamos também de espaços como este, onde todas as vozes, cada uma com seu saber, sua linguagem, sua forma de ver o país, possam apresentar contribuições e críticas ao que chamamos Moçambique. Porque só assim, na pluralidade e na escuta mútua, poderemos imaginar juntos o país que ainda queremos construir.

A coragem de Jauana e a densidade de Raimundo mostram que a academia não se pode manter à margem. Precisamos falar mais, escutar mais, incomodar mais. Afinal, 50 anos depois, a pergunta que importa não é só o que conquistamos, ou que fizemos mal, mas que precisamos ter coragem de transformar.

Cenários Futuros para Moçambique: Coragem, Complexidade e Reconstrução Nacional

Moçambique celebra seu Jubileu ou Bodas de Ouro – 50 anos de independência em meio a um paradoxo doloroso: a liberdade conquistada contrasta com uma realidade ainda marcada por pobreza, exclusão, conflitos armados, corrupção e desigualdades profundas. São situações e experiências históricas que convivem, lado a lado, com promessas não cumpridas.

Diante desse cenário, as recentes intervenções do sociólogo Hélder Jauana e da geógrafa Raimundo, abrem caminhos para pensar o futuro do país com coragem e lucidez. Ambos, a partir de lugares distintos do conhecimento, desafiaram o conforto da narrativa oficial e convidaram à reflexão crítica, sobre o que fomos, o que somos e, sobretudo, o que ainda podemos ser.

Aqui vai minha contribuição nesse processo de pensar Moçambique. Como disse: todos nós temos o dever de pensar este país — sejamos intelectuais ou não. Porque a nação não se constrói apenas nos gabinetes, nas cátedras ou nos palanques. Ela se constrói também nas perguntas que ousamos fazer, nas verdades que enfrentamos, e nas vozes que não se calam.

Primeiro Cenário – Ruína Prolongada: o risco da estagnação e da implosão institucional

Caso o país insista em manter a rota actual ignorando as vozes críticas e a urgência de reformas estruturais. Moçambique corre o risco de dar mais vida aos seus problemas. Convidar académicos para falar sobre o país é sim importante, mas, mais importante ainda é o que se faz com o que é dito. Não basta ouvir, é preciso agir. Muitos intelectuais já ofereceram diagnósticos profundos e propostas concretas, mas viram suas ideias serem descartadas, ignoradas ou usadas apenas para compor o protocolo da ocasião. O pensamento crítico não pode continuar a ser decorativo, ele precisa entrar nas decisões, influenciar políticas e transformar realidades. O distanciamento entre o Estado e a população camponesa, denunciado por Jauana, pode agravar a marginalização social, alimentando revoltas, como se vê nas zonas afectadas pelos conflitos armados e ou lugares de extrema pobreza. A falta de representação real e a manutenção da “pureza partidária” geram exclusão e violência simbólica. Sem reconhecer as diferenças internas, não há futuro comum.

Ademais, a incapacidade do Estado em garantir serviços essenciais como educação, saúde, habitação e emprego compromete qualquer possibilidade de desenvolvimento. Em termos de infra-estrutura, o país permanece vulnerável às mudanças climáticas, com desastres naturais recorrentes e resposta institucional limitada. A corrupção sistêmica aumenta a desigualdade e mina a confiança da população. É necessário fazer um plano de Metas e decidir com acções concretas como resolver alguns problemas do país.

Segundo Cenário – Transição e Resistência: rupturas, brechas e reconfiguração política

A coragem de Jauana de dizer o que muitos pensam e a densidade teórica de Raimundo apontam para uma possibilidade de ruptura. Esse cenário implica uma reconfiguração da prática política, abrindo espaço para novos actores e para a sociedade civil organizada. O fortalecimento de movimentos juvenis de base comunitária, feministas e ecológicos poderia pressionar para maior transparência, inclusão e responsabilidade pública.

Inspirando-se em experiências como a da Tunísia após a Primavera Árabe, ou a do Chile em sua recente tentativa de reforma constitucional, Moçambique poderia adoptar processos participativos de revisão de suas instituições. Para isso, é fundamental investir na educação crítica, com formação cidadã, da cidadania activa e pensamento independente, aberta a vozes regionais nos âmbitos políticos e culturais.

Terceiro Cenário – Reconstrução Estruturada: um novo pacto nacional com base na equidade e na planificação territorial

Partindo das ideias de Raimundo sobre o espaço e as relações de poder nos processos de territorialização, Moçambique pode e deve conceber um modelo novo de desenvolvimento baseado na justiça territorial e na Governança local. Esse cenário exige uma reforma profunda do Estado: com descentralização real, fortalecimento das administrações distritais e urbanas, e políticas integradas de uso do solo, habitação e protecção ambiental, com vista a uma melhor exploração dos recursos naturais e com isso uma melhor e equitativa distribuição de renda que será produto dessa exploração de recursos.

À primeira vista, isso pode parecer uma proposta nova — mas não é. Severino Ngoenha já a formulou em diferentes momentos, segundo ele, essa foi sempre a visão de Eduardo Mondlane, que sonhava com um país descentralizado, com comunidades empoderadas e um território pensado a partir das necessidades das pessoas e não dos interesses de elites centralizadas. O desafio, portanto, não é inventar novas ideias, mas ter coragem política para realizá-las, como terá escrito Ngoenha no seu livro: Mondlane: regresso ao futuro.

Modelos como o da Costa Rica, que combina desenvolvimento humano com preservação ambiental e estabilidade institucional, e o de Botsuana com gestão estratégica dos recursos naturais e combate efectivo à corrupção, poderiam inspirar estratégias de longo prazo para Moçambique, o tal plano de Metas de que falei.

Essa reconstrução exige: a) Um novo pacto social, com participação cidadã e cidadania activa; b) Investimentos em educação pública, principalmente no ensino superior, com foco em ciência, tecnologia e formação docente; c) Combate à corrupção com uma credível actuação e fiscalização, por organismos independentes, a tal criação de instituições fortes e independentes de que Ngoenha sempre fala; d) Políticas de inclusão económica e territorial, com infra-estrutura voltada para as zonas rurais e periféricas; e) Reforma fiscal para garantir redistribuição de renda e riqueza nacional; e por fim e não menos importante, f) Integração regional mais activa com a SADC e a  constituição de alianças estratégicas com países do Sul Global.

Para pensar Moçambique em seu futuro próximo, é fundamental partir do exercício da cidadania activa e efectiva, entendida como um conjunto integrado de propostas que reflictam as demandas reais da população e os desafios estruturais do país. Um novo pacto social deve estar no centro dessa transformação. Investir fortemente na saúde, educação pública e superior, com foco em ciência, tecnologia e formação docente ou de professores é indispensável para capacitar as novas gerações e promover um desenvolvimento sustentável e inclusivo.  Ao mesmo tempo, o combate à corrupção precisa ser enérgico e transparente, com o fortalecimento de organismos e instituições independentes que garantam credibilidade e eficácia nesse combate.

Políticas que promovam a inclusão económica e territorial, especialmente para as zonas rurais e periféricas, devem ser prioridade, com infraestrutura adequada para diminuir desigualdades históricas. A reforma fiscal é outro pilar, assegurando a redistribuição justa da riqueza para reduzir as disparidades ou assimetrias sociais. Como esquecer do Fundo Soberano, mas sobre este assunto falarei noutro texto.

Por fim, Moçambique deve ampliar sua integração ou o dinamismo que a SADC oferece e fortalecer alianças estratégicas com países do Sul Global, buscando solidariedade, cooperação e desenvolvimento conjunto. Essas directrizes formam a base para repensar o país, promovendo justiça social, crescimento sustentável e uma nação mais coesa e resiliente.

Considerações Finais: o papel da coragem e da escuta

O futuro de Moçambique dependerá da capacidade de combinar coragem para romper silêncios com a complexidade teórica que ajude a compreender as causas estruturais das várias crises. As falas de Jauana e Raimundo revelam dois pilares de um futuro possível: o da intervenção política consciente e o da reflexão geográfica profunda.

Eles lembram-nos que uma nação não se constrói com retórica inflamada, mas com carácter honesto, capaz de reconhecer suas feridas, capacidade e sensibilidade de escutar as margens e com ousadia de reinventar seus caminhos. Moçambique, mais do que noutros momentos, precisa não apenas de ideias, mas também de acções estruturadas, corajosas e plurais.

Este país, jovem de apenas 50 anos de independência, ainda guarda em seu interior inúmeras possibilidades para refazer seu destino de forma melhor e mais justa. Sinto que chegou a hora de acreditarmos em caminhos ainda não trilhados, de valorizarmos nosso conhecimento acumulado e de juntos, governantes, intelectuais, comunidades e cidadãos, construirmos o Moçambique que sonhamos.

O convite é claro: a quem detém o poder, sugiro que escute com humildade e aja com coragem. E a todos nós, que façamos da participação activa um compromisso inadiável, porque a construção de uma nação forte e democrática é tarefa que cabe a todos.

*Geógrafo pela Universidade Eduardo Mondlane (2009), Mestre (2012) e Doutor (2017) em Geografia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Tem experiência e actuação principalmente nos seguintes temas: Geo-história, Epistemologia do Geografia, Ensino de Geografia, Gestão de Resíduos Sólidos Urbanos, Impactos Ambientais, Justiça Climática, Mudanças Climáticas e Geografia Agrária. Tem Dois Pós-doutorados, o primeiro em Gestão de Bancos de Dados Geográficos aplicados a Geografia urbana e urbanização em África, pelo Instituto E-Geopolis – França, e o segundo em Geografia pelo Programa Rainha Elisabeth Segunda para Justiça Climática (QES- Climate Justice) da York University – Canadá.  Membro Fundador do Observatório Ambiental para Mudanças Climáticas – ObservA, faz parte do Think Thank – Pensar Moçambique.

 

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