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24 de June, 2025

Um discurso para os 50 anos da proclamação da independência

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No dia 25 de Junho de 2025, o Estado moçambicano completará 50 anos de independência. Na data o Presidente da República (PR) Francisco Chapo, o 5º do jovem Estado moçambicano, fará o seu primeiro discurso por ocasião da celebração de mais um ano da proclamação da independência e num contexto doméstico agravado de problemas e de enormes desafios sociais, humanos, económicos e políticos, sobretudo as decorrentes da tensão pós-eleitoral e fora os de ordem mundial, destacando as guerras que assolam o continente europa e o oriente médio cujo impacto é global. O que dirá o novo PR que os que o antecederam não tenham dito? Eis a questão.

A História prova de que é em tempos difíceis – e o país vive esses tempos – que brotam os grandes líderes que fazem a diferença, convocando, com o seu perfil e projecto político, a população para as mudanças requeridas e por melhores dias. Foi assim com Franklin Delano Roosevelt, 32º presidente dos Estados Unidos da América (EUA), diante da crise dos anos 20/30 do século XX. Nessa altura, concretamente em 1936, Roosevelt proferiu um discurso no dia 27 de Junho cuja dimensão e repercussão agradecem a transformação social e económica dos EUA.

Nesse discurso e diante da crise enfrentada pelos EUA, Roosevelt, plenamente consciente da sua responsabilidade perante a história e o povo americano – que o confiara para um mandato extraordinário – não hesitara em iniciar uma nova política – o New Deal – na qual buscaria as soluções para combater a crise num percurso de avanços e recuos.

Foi neste espírito e vontade que expectei, em 2020, que o anterior PR, Filipe Nyusi, tivesse feito o seu discurso dos 45 anos da proclamação da independência, que impactasse positivamente e fosse recordado por gerações como o discurso que transformou o país numa “Nova Pérola”, a de um outro e novo Moçambique. Debalde.

Ainda no mesmo ano, 2020, e depois do discurso do anterior PR pelos 45 anos da independência, escrevi na altura o que achava que teria sido uma parte do discurso do PR. Por ainda achar a sua pertinência, reponho abaixo essa parte, com uma e outra actualização que não afecta o essencial da mensagem original, na esperança de que os assessores do actual PR leiam e deem o devido seguimento.
“Caros moçambicanos e moçambicanas

Tenho a plena consciência de que não terei sido a vossa escolha unânime. Tenho ainda a consciência de que a minha eleição para o cargo de Presidentes da República decorreu num processo eleitoral caracterizado por algumas zonas de penumbra, historicamente recorrentes e que, na sequência, corroí e reduz a confiança do povo em todo o edifício democrático do Estado moçambicano e na sua capacidade de solucionar os problemas do país. Não me orgulha e até inquieta-me ser rotulado de um presidente eleito em condições de desconfiança. E por sentir na pele essa condição, que não auguro para quem me suceder, gostaria de que em conjunto empenhássemos esforços para credibilizar e estabilizar o nosso sistema eleitoral que, a meu ver, é uma condição essencial para o sucesso da nossa jovem democracia e do nosso futuro como um Estado próspero e de direito.

Tenho também a plena consciência de que haja ainda dúvidas que eu não responda cabalmente às expectativas do povo moçambicano. Por extensão, e mesmo que tenha apenas meio ano de governação, reconheço que não tenha tido até agora o engenho e o discernimento necessários à altura para enfrentar os problemas e desafios do país. Reconheço ainda que ainda não me fiz acompanhar com o que de melhor o país dispõe em termos de quadros e talentos nacionais, na sua maioria, produtos dos ganhos do período pós-independência. No presente mandato, iniciado em Janeiro passado, eventualmente não tenha também correspondido na formação do elenco que me acompanha.

Não obstante, estou hoje, mais do que nunca, ciente de que urge mudar o curso da nossa História de governação. E diante de nós, o presente e o futuro, são as variáveis de tempo sobre as quais ainda podemos alterar o seu curso. O passado, apenas nos servirá de conselheiro. Assim, e agora, preocupa-me sobre o que devemos fazer para que o amanhã seja risonho para cada um de nós e para as próximas gerações. Os tempos que correm, certamente que não são dos melhores, mas os que se aproximam, e por conta do que será a nossa árdua e titânica entrega na luta diária, podem ser transformados em melhores. E se me escutam é sinal de que ainda existe uma réstia de força e esperança, e rogo, por isso, que não vacilemos perante as tempestades do percurso assim como o fizeram os moçambicanos e moçambicanas que resistiram e lutaram, de diferentes formas, até que a independência, a que hoje celebramos, fosse alcançada.

Meus compatriotas,

O tempo urge. E por hoje não tomarei mais do vosso precioso tempo que tanto escasseia quanto os bens e serviços de que necessitamos para a nossa sobrevivência. Todavia, gostaria de tomar a vossa atenção para expressar, do fundo do meu coração, as minhas sinceras desculpas por não termos, eu e o meu partido, até então, contribuído o suficiente para que hoje celebrássemos os 50 anos da proclamação da independência de um Estado que todos almejamos ou, no mínimo, que estivéssemos nessa direcção. E nesse sentido, o de criação de um Estado que espelhe o conjunto dos nossos sonhos, e na minha qualidade de Presidente da República convoco a todos os moçambicanos e moçambicanas, do Rovuma ao Maputo e na diáspora, a reflectirmos sobre o caminho que se deve seguir no futuro, e em particular, nos próximos cinco anos, de modo a celebrarmos, em 2075, o centésimo aniversário da independência nacional em condições melhores e num quadro em que na diversidade, e de uma vez por todas, possamos caminhar em terra firme, em paz e em contínuo desenvolvimento.

Neste contexto, e partindo do princípio de “fazer diferente, para obter resultados diferentes” foi criada a plataforma nacional para o diálogo inclusivo cujos resultados permitam criar as condições para uma nova caminhada sob o manto do brilho do sol de Junho e pedra a pedra construindo o novo dia. Vamos Trabalhar! Bem hajam e muito obrigado!”.

Estas palavras ou outras com teor similar espero ouvir do discurso do PR no próximo dia 25 de Junho, por ocasião dos 50 anos da proclamação da independência nacional. Aguardo e vou conferir.

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