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22 de Fevereiro, 2025

LINA MAGAIA, 80 ANOS

 

“Tenho quatro filhos. Um deles foi-me dado pelo destino fruto da acção dos bandidos armados. Pari três.”“Tenho quatro filhos. Um deles foi-me dado pelo destino fruto da acção dos bandidos armados. Pari três.”

 

Lina Magaia (in “Dumba Nengue”)

Era uma mulher impetuosa, falava com veemência, argumentava empolgada, arrebatava com o seu fervor e as suas ideias. Os seus olhos interpelavam-nos. Indagavam-nos. Não deixava ninguém indiferente. Dizia o que pensava sem rebuços. Não se coibia de discordar dos seus e divergir dos seus camaradas quando pensasse diferente. Era indomável contra os seus adversários. Tinha uma pluma esplendente. A sua escrita, igualmente enérgica, nimbada pelas suas ideias e as suas crenças, era penetrante. Escrevia na fronteira entre o jornalismo e a literatura, entre o relato e a denúncia, entre o depoimento e a biografia. Dividia opiniões? Claro. Era assertiva e generosa, humanamente generosa. Tinha causas. Lutava por elas. Tinha compromisso com a vida e o destino dos outros. Era partidária da verdade. Por isso, também ficou conhecida pela denúncia do genocídio que esventrou o país nos anos 80. Foi indubitavelmente uma das mulheres do século XX moçambicano.

 

Nasceu Lina Júlia Francisco Magaia na vetusta Lourenço Marques (Maputo) a 21 de Fevereiro de 1945. O pai, Francisco Magaia, era filho de um régulo em Marracuene. A mãe, Salina Fragoso, nascida na Manhiça, provinha de uma família de Manjacaze, fugida das guerras imemoriais que assolavam aquelas terras. Manhiça passaria a ser o arrimo da família. Jovem professor, o pai de Lina foi colocado na Machava.

 

Os pais casaram em 1942. O jovem Francisco teve como padrinho o professor Samuel Dabula. A primeira sorte ocorreu-lhes em 1943, uma menina que seria a irmã mais velha de Lina. Francisco abandona o ensino na Missão Suíça e candidata-se aos serviços meteorológicos. A família estabelece-se em Lourenço Marques numa casa alugada de madeira e zinco. Em 1947, ano em que nasce o seu irmão Albino, a sua avó, em visita à capital, leva-a consigo no regresso à Manhiça. Lina viverá com a avó materna até aos 5 anos. A avó tinha uma machamba e a neta ia com a avó, brincava na machamba. Talvez venha daí a sua relação próxima com os camponeses e a defesa intrépida que iria fazer deles ao longo da vida. Parte importante da sua acção cívica e do seu activismo futuro tem a ver com os camponeses. 

 

Regressa, entretanto, à capital. O pai matriculou-a na Escola da Missão Suíça de Chamanculo e foi aluna do professor Marcelino Macome. Na Escola do Centro Associativo dos Negros será aluna do professor Dabula, padrinho do pai e amigo de família. Viviam no Xipamanine. A sua cintilante inteligência e a sua inquietude já se manifestavam. Não acatava os ditames paternos para ficar em casa e envolvia-se já na luta clandestina. Isabel Manuel (Honwana Munguambe) foi uma das suas colegas de escola.  Dava-se com a irmã de Isabel, Violante Manuel (Honwana). Era amiga de Eulália Muthemba. Atardava-se em confabulâncias com Domingos Arouca. A Armando Guebuza ligava-lhe uma amizade indefectível. Acontecia o mesmo com Cristina Tembe. Pertenciam ao Centro Associativo dos Negros, émulo do regime e gérmen do nacionalismo. 

 

Quando o pai é transferido para o Guijá, em 1957, Lina tem 12 anos e já está engajada no Núcleo dos Estudantes Secundários Africanos de Moçambique (NESAM), onde os jovens discerniam o futuro. Samuel Dabula é a figura tutelar. Joaquim Chissano preside ao núcleo. Frequentam-no: 

 

Filipe Samuel Magaia, Mariano Matsinha, Armando Guebuza, Pascoal Mocumbi, Eneas Comiche, Jorge Tembe, Cristina Tembe, Isabel Honwana, Violante Honwana ou os mais novos Joel Libombo, João Honwana ou Marcelino Comiche. 

 

Foi uma estudante ostensivamente inteligente. Sobretudo quando de Matemática se tratava. O seu brilho era também uma forma de afirmação num contexto discriminatório e segregado, onde os pretos eram vistos sobretudo como preguiçosos mentais. Isto para não trazer à liça a grosseria e imbecilidade que divisam o legado colonial neste quesito e que são branqueados por muitos e esquecidos por outros. 

 

Foi militante clandestina. Pertencia à célula chefiada por Ângelo Chichava. Seria presa e interrogada várias vezes pela PIDE. No dia 21 de Fevereiro de 1965, quando fazia 20 anos, estava na cadeia. Esteve na célebre Cela 1. Transferiram-na desse calabouço para que nele fosse encarcerado o Poeta José Craveirinha, avulta daí o seu livro “Cela 1”. Lina passaria para a cela 9. 

 

O irmão, o jornalista e escritor Albino Magaia, meu Mestre de grata memória, também conheceria o opróbrio da PIDE e as agruras da prisão. Foi dos que estiveram presos em Mabalane – do grupo dos 75 que foram capturados na Swazilândia e recambiados para Moçambique. Mais tarde foram transferidos para a Machava, Ka Djamangwana. “Yô Mabalane!”, de Albino Magaia, dado à estampa em 1983, relata esses tempos ominosos. 

 

Quando Lina readquire a liberdade é impedida de prosseguir os estudos diurnamente. Matricula-se no curso nocturno. Terminou o ciclo preparatório com notas altíssimas. Matricular-se-á em Lisboa para onde vai estudar Economia no Instituto Superior de Ciências Económicas. Partilhará a residência com Graça Simbine (Machel). Viviam no mesmo lar e eram amigas. Estão a estudar, na capital do Império, alguns (poucos) moçambicanos. Ela dá-se com Salomão Munguambe (recentemente falecido), Teodato Hunguana ou Raúl Honwana (irmão mais velho da sua antiga colega Isabel). 

 

Enamora-se por um jogador de futebol. Nasce, desse idílio, o primeiro filho. A relação com Messias desfaz-se, entretanto. Augusto e Judite Matine irão ampará-la. Em 1972 visita Moçambique. Traz consigo o filho. Quando retorna a Portugal, a mãe Salina queria que ela lhe deixasse o neto.

 

Chega a dizer-lhe que se o levasse de volta, ela não resistia um ano. Na véspera do primeiro aniversário do seu pequeno Julinho, em Junho de 1973, a mãe de Lina morre, como se subscrevesse aquela premonição. 

 

Com o 25 de Abril de 1974 em Portugal e a alteração da ordem política tem condições de partir para a frente. O destino é Nachingwea, na Tanzania. De Portugal parte para Itália, tempo de espera em Reggio Emilia, enquanto se informava a direcção da Frente. Segue por Cairo, no Egipto.

 

Recebe-a Óscar Monteiro. Tinha, antes, passado por Argélia. É recebida por Alberto Cassimo no aeroporto de Dar- es-Salaam. Chega a Nachingwea em Setembro de 1974.

 

Lina ficará a receber treino militar.  O filho não poderia estar no centro com a mãe e é levado para Tunduru. Lá estaria num quarto com outras crianças. No entanto, o pequeno Julinho fica doente, deixa de comer, passam meses, a sua saúde declina. A informação sobre a doença do filho não chega à mãe. Será Suzette Honwana que, numa ida a Nachingwea, irá adverti-la da situação e do estado em que o pequeno Julinho se encontrava. O camarada que deveria ter-lhe dado conhecimento, ocultara essa informação. Viaja de imediato num camião que levava armamento.  Ainda o encontra vivo, mas o filho não irá resistir, morre pouco depois. Fizeram o fardamento militar para o miúdo e enterram-no. Lina não conseguiu acompanhar as exéquias até ao fim. Terá o amparo de Samora Machel, que a chama para perto de si, fala-lhe da sua experiência e dor da sua perda.

 

Entre Maio e Junho de 1975 participa num curso de oficiais subalternos. Em Junho regressa a Moçambique. Está alquebrada. Foi para o quartel de Boane e depois para o Hospital Militar. No dia da Independência vai ao Estádio da Machava, mesmo doente. É o dia mais ansiado, pelo qual empenhou a sua juventude. Tem 30 anos.

 

Foi deputada e activista social nos tempos ulteriores à independência. Foi casada e mãe de quatro filhos. Os dois primeiros faleceram. Brigou pelos camponeses, pugnou por uma revolução verde, sonhou com uma reforma agrária. Em 1983 vai residir para o distrito da Manhiça e mantem-se activa e firme no apoio intransigente aos camponeses. Em 1986 passa a dirigir a Região de Desenvolvimento Agrário da Manhiça. É neste período que experiencia as vivências brutais que estão na origem do seu livro “Dumba Nengue” (Histórias Trágicas do Banditismo), de 1987. Volta a escrever para a imprensa, sobretudo para a revista “Tempo”. Muito jovem, sobretudo nos anos 60, colaborara no “Brado Africano”,” A Voz Africana”, “Diário de Moçambique” e “A Tribuna”), com reportagens, crónicas e contos. Escreve com fúria, repulsa, cólera.

 

Em 1987 ocorre o tenebroso massacre de Homoíne. Em “Duplo Massacre em Moçambique” – Histórias Trágicas do Banditismo II, Lina narra esse acontecimento horripilante. Escreve, fala, rebela-se. É voz dos que não tem voz. O seu activismo é vigoroso. A sua intervenção indómita.  É actriz em “Maputo Mulher”. É uma figura estelar no nosso espaço público. Escreve e publica “Delehta – pulos da vida” (1994) e “A Cobra de Olhos Verdes” (1997). Antes do seu ocaso, que iria ocorrer a 27 de Junho de 2011, publica “Recordações da Vovó Marta” sobre a mãe do seu velho amigo

 

Armando Guebuza. Fazia parte de um projecto de memórias e relatos sobre determinadas personagens ou figuras. Não prosseguirá esse desiderato. Ficou a sua voz a reverberar, a sua pluma nos jornais e nos livros, a lembrança do seu olhar na pantalha dos jornais. A sua figura imponente, debelada pela doença no fim. A lembrança da sua lendária boina basca. Os seus relatos cortantes, a sua prosa escorreita, apurada.

 

Releio-a muitos anos depois e dou-me conta de que a minha intrepidez juvenil não foi capaz de lhe consentir a importância da sua escrita literária. Antes de morrer, tive ocasião de lhe fazer esse reparo. Aquilo que me parecia puro relato jornalístico tem vislumbres literários que denunciam uma bela prosadora. Recordo que o seu irmão Albino tinha uma admiração pela notável Lina. Dou-lhe razão. Ela foi uma mulher extraordinária. Deixou um legado. O seu nome. O seu activismo. A sua audácia, o seu destemor, a sua coragem, a sua paixão pelas causas sociais. A nobreza das suas ideias e dos seus actos. A sua exuberância, a sua imensidão. Tinha 66 anos e uma vida plena, digna, honrada. Era uma mulher desassombrada e de uma rara fidalguia. Como poucas. Até ao fim. 

 

Lina Magaia faria hoje 80 anos. Não sei se deram alguma honraria depois da sua morte, se empresta o seu nome a alguma rua. Somos um país distraído, omisso e relapso. Cultivamos a injustiça da desmemória e a altivez da ignorância. Não sabemos enxergar os melhores. Cá por mim, tenho-a como uma das melhores no devir moçambicano.  Presto-lhe aqui o meu preito, a minha homenagem. 

 

KaMpfumo, 21 de Fevereiro de 2025

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