Há dias em que a pena pesa como chumbo, e este é, sem dúvida, um desses momentos. Partilhei, na semana passada, uma reflexão sobre os pequenos desaires do nosso civismo diário — o lixo que atiramos pela janela do chapa, os maus hábitos que trouxemos da cidade de cimento e a urgência de urbanizarmos as nossas próprias mentes. Contudo, a realidade tem uma forma dura de nos puxar de volta para o essencial e de nos mostrar que há feridas muito mais profundas a sangrar mesmo por baixo do nosso nariz.
O feedback à minha última crónica abriu-me os olhos para um abismo que nos estilhaça a todos: um fenómeno macabro, sem precedentes na nossa vivência na Ka-Tembe, que vem tirando o sono a pais e encarregados de educação. Refiro-me ao misterioso e assustador desaparecimento de crianças em idade escolar, entre os 6 e os 9 anos.
Semanalmente, os grupos locais de WhatsApp transformam-se em corredores de angústia, onde se partilham alertas e rostos de mais uma criança que desapareceu. Para agravar o desespero, paira uma incerteza assustadora sobre o destino das que já foram dadas como desaparecidas. O caso mais recente, que nos deixa a todos com o coração nas mãos, envolve um menino de pouco menos de sete anos, aluno da 1.ª classe na Escola Básica de Chamissava.
Nos poucos anos que frequento e resido na Ka-Tembe, nunca tinha testemunhado nada com esta dimensão de crueldade. A verdade nua e crua é esta: à medida que o nosso distrito cresce em população e dinâmica imobiliária, os seus problemas ganham novas e aterradoras formas, agigantando-se perante a nossa incapacidade de resposta. Se o assalto a residências e estabelecimentos comerciais já vinha sendo uma fonte de grande inquietação, este novo flagelo de rapto e aliciamento de menoresultrapassa todos os limites da tolerância humana.
Nas conversas que venho mantendo com vizinhos e conhecidos locais, o sentimento é de pânico e incompreensão. O que se diz é que este horror pode estar ligado à movimentação de indivíduos estranhos à Ka-Tembe. Circula já, de forma amplamente partilhada entre os moradores, a imagem de um jovem não residente, suspeito de se fazer transportar numa viatura de cor preta — de matrícula ainda não identificada –, que utiliza doces e promessas de presentes para aliciar a pureza infantil nas proximidades de unidades escolares. Crianças que, na sua inocência, não conseguem recusar o perigo que se esconde por trás de um sorriso falso.
Perante este cenário assustador, a resposta não pode ser o pânico passivo. Do nosso lado, famílias, impõe-se um reforço imediato da vigilância sobre os nossos pequenos. Precisamos de ter conversas abertas e francas com as nossas crianças desde cedo, ensinando-as a identificar abordagens suspeitas e a não aceitar boleias, doces ou conversas de estranhos. É verdade que estas conversas em casa e o redobrar de cuidados por parte dos pais são medidas falíveis — porque a ingenuidade infantil é naturalmente vulnerável e o crime actua pela astúcia, mas não podemos, de forma alguma, deixar de o fazer nem baixar a guarda um segundo que seja.
Contudo, o dever de proteção não pode recair apenas sobre os ombros dos pais. É urgente e imperativo que as autoridades policiais estabeleçam um plano de patrulhamento efectivo e permanente no perímetro de todas as escolas do distrito, com especial incidência nos horários de entrada, saída e nos trajectospedonais mais vulneráveis. As nossas escolas não podem ser zonas desprotegidas à mercê de predadores.
Escrevo sobre este tema porque, como me lembrou recentemente um amigo e vizinho, “o seu clamor pode levantar uma chama de repúdio, mas o silêncio pode fomentar ainda mais esta barbaridade.” Senti-me profundamente tocado por estas palavras. E sinto-me, ao mesmo tempo, orgulhoso de perceber que este espaço de reflexão já não é apenas meu; é de todos nós.
A Ka-Tembe não é feita apenas de betão, estradas por asfaltar ou poeira; é feita, acima de tudo, das nossas crianças, do futuro que estamos a criar nesta margem. Este espaço público não serve apenas para debater o que gostaríamos de ver embelezado, mas sim, e principalmente, para gritar contra o que está imediatamente mal, criminoso e intolerável nos nossos bairros e quarteirões.
O desaparecimento de crianças precisa de tinta, de papel e de toda a nossa força para ser repudiado e denunciado sem meias palavras. Queremos erguer as nossas vozes como residentes para exigir das autoridades policiais e municipais uma resposta implacável e presença física no terreno. As nossas crianças têm o direito de caminhar para a escola em segurança, e os pais o direito de trabalhar sem o coração nas mãos. Por isso, basta de silêncio!





