As notícias dos últimos dias movem-se todas ao mesmo ritmo, embaladas pela mesma inevitabilidade cinzenta: a iminente subida do preço do transporte público — o nosso eterno e indisciplinado “chapa” — na Área Metropolitana de Maputo. Sabemos, com a resignação que já nos corre nas veias, que mais dia, menos dia, a nova tarifa vai bater-nos à porta. Teremos de pagar! As famílias farão, uma vez mais, aquela ginástica financeira que desafia as leis da física e da economia doméstica. No entanto, se formos honestos, não é o adeus a mais uns meticais que nos fere a alma; é a humilhante certeza de que continuaremos a pagar cada vez mais por um serviço que nos entrega cada vez menos.
Nos últimos meses, o coração da cidade de Maputo transformou-se num estaleiro a céu aberto. As obras de requalificação do sistema de drenagem trouxeram a promessa de um futuro sem cheias, mas o presente tornou-se um teste de sobrevivência. Sob o pretexto do trânsito caótico e dos desvios, os transportadores decidiram, unilateralmente, reescrever o mapa das suas concessões. O incumprimento para com os munícipes deixou de ser uma excepção e passou a ser a norma, praticado à luz do dia, sem pudor nem castigo.
O caso dos chapas que partem da Marinha e de Chamissava é o retrato perfeito desta nossa desolação quotidiana. Supostamente, o destino final deveria ser o terminal do Anjo Voador. Mas o Anjo, para nós, virou uma miragem intransitável. O cúmulo do cinismo acontece logo na partida: antes mesmo do carro arrancar, os passageiros são friamente advertidos de que a viagem vai terminar mais cedo, ali no Jardim dos “madjermans”.
Para quem pretende chegar à baixa da cidade, o aviso soa como uma sentença de abandono. Quem vai custear a viagem até ao destino real? Se é que ao perguntar teremos resposta alguma… O silêncio dos operadores é a única réplica. O ponto de partida mantém-se inalterado lá no cemitério, mas o destino muda ao sabor do capricho do cobrador, obrigando-nos a pagar o preço certo por uma viagem com destino incerto.
E se a vinda para o trabalho é um drama, a hora de regresso a casa transformou-se numa autêntica operação militar. Quem vai de boa-fé para o terminal do Anjo Voador, na expectativa de apanhar o chapa por lá, na certa não apanha! O terminal virou um deserto dos chapas da Marinha e Chamissava e um mar de desespero.
As paragens intermédias transformaram-se na arena principal onde se pratica o novo desporto olímpico dos katembenses. Sem direito a medalhas, mas movidos pelo desespero, os utentes são obrigados a emboscar e cercar o chapa quilómetros antes do ponto onde ele deveria, por lei, vir desaguar. Esta corrida de obstáculos diária exige velocidade, cálculo táctico e o bónus da humilhação final: acabar a pagar as famosas “ligações” — aquele desmembramento artificial das rotas que os chapeiros tanto gostam e pelo qual tanto se sacrificam para arrancar mais uns trocados aos bolsos já minguados dos passageiros.
O mais gritante, porém, não é a ousadia mercantilista dos chapeiros. É a assustadora apatia da nossa Polícia Municipal. Perante este espetáculo vergonhoso de total desrespeito pelos utentes do transporte público, a autoridade que nos devia proteger não muge nem tuge. Assiste à nossa humilhação quotidiana com uma serenidade que roça a cumplicidade.
Escrever isto pode parecer um exercício puramente acusatório, uma cisma ou uma cabala contra as forças da ordem. Mas para quem vive e respira a Ka-Tembe, a verdade é crua e dispensa eufemismos: a nossa polícia não existe, é um factor de soma zero!
Há um paradoxo ainda mais doloroso nesta equação. A maioria dos operadores que exploram estas rotas são gentes daqui. São residentes, filhos da Ka-Tembe, que cresceram nas mesmas ruas e conhecem as dificuldades dos seus vizinhos. Ainda assim, operam com um desprezo e um cinismo soberbos, tratando os seus próprios conterrâneos com o mesmo desdém que muitas vezes criticamos quando vem de gente de fora. Nada justificaria esse comportamento, nem para com munícipes de outros distritos, mas ver a solidariedade comunitária naufragar no altar do lucro rápido do chapa dói duas vezes mais.
Desejamos, legitimamente, que as autoridades municipais saiam do seu transe e nos respondam: como é possível que um sector privado actue com tamanha anarquia sem que haja uma única consequência? Até quando continuaremos a fingir que temos fiscalização nas estradas?
A Ka-Tembe cansou-se de improvisar, de ser despejada no Jardim, de cercar o transporte público a meio do caminho e de pagar por promessas que terminam em encurtadelas. Se a subida do preço é inevitável, a exigência de dignidade e de uma polícia que cumpra o seu papel também tem de ser. Caso contrário, continuaremos todos na paragem, a pagar o dobro para ver o respeito pelo cidadão passar de largo.





