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24 de June, 2025

Chapo desfaz tabu e admite diálogo com os “terroristas”

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O Presidente da República, Daniel Chapo, admitiu no domingo (22) a disponibilidade para encetar o diálogo com as “lideranças certas” dos grupos armados que protagonizam ataques no norte de Moçambique, lembrando que a Renamo começou por ser tratada como um grupo de “bandidos armados”, mas a Frelimo viu-se obrigada a entrar em conversações com a guerrilha da organização, que depois se transformou em principal partido da oposição.

“Temos de continuar a batalhar no terreno [contra os insurgentes em Cabo Delgado], mas, ao mesmo tempo, encontrar linhas de diálogo. Com a Renamo, começamos por chamar bandidos armados, que se dispersavam para roubar às populações, mas depois percebemos que há uma estrutura organizada e, quando há estrutura, há motivações”, frisou Chapo.

O chefe de Estado falava durante uma conferência de imprensa na Presidência da República, sobre os 50 anos da independência nacional, que se assinalam no próximo dia 25.

Sublinhando que a situação de segurança em Cabo Delgado está controlada pelas Forças de Defesa e Segurança e pelo efectivo militar do Ruanda, Daniel Chapo declarou que será necessário conhecer as “lideranças certas” dos insurgentes que actuam desde outubro de 2017, visando empreender o diálogo.

“Temos de perceber que há motivação, perceber que há liderança, há logística. Temos de seguir as duas vias: uma combatendo no terreno e outra perceber essa estrutura, como fizemos com a Renamo, quando percebemos quem eram os verdadeiros líderes (….). As guerras sempre terminam com o diálogo, achamos que o diálogo é fundamental”, reforçou Daniel Chapo.

Sobre os ataques a acampamentos ligados a safari e a conservação na Reserva Especial do Niassa (REN), Chapo assegurou que os grupos armados foram expulsos daquele santuário e regressaram a Cabo Delgado, tendo sofrido “algumas baixas”.

“Agora estão confinados em Cabo Delgado. Neste momento, não há sinais de terrorismo em Cabo Delgado”, sustentou.

Questionado sobre queixas de alguns antigos guerrilheiros da Renamo de que o processo de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR) foi mal conduzido, Daniel Chapo rejeitou essa asserção, afirmando que aquele mecanismo é único no “planeta terra”.

“Num processo como DDR, não é possível que toda a gente fique satisfeita, mas a nossa avaliação é que o processo foi bem conduzido, é o único exemplo no planeta terra em que guerrilheiros de um movimento como a Renamo, depois de desmobilizados, beneficiaram de uma pensão. Podem investigar, somos os únicos, não existe isso no mundo”, realçou.

O Presidente moçambicano assinalou que o país precisa de paz, para embarcar num processo de desenvolvimento social e económico sem percalços. “Queria deixar, de forma clara, que não há nenhum desenvolvimento sem paz e segurança”, frisou.

Chapo quer reformas profundas e um inspector-geral do Estado

O Presidente da República, Daniel Chapo, defendeu ainda que o país precisa de “reformas profundas”, anunciando a criação da figura do inspector-geral do Estado, para a investigação de crimes de corrupção na Administração Pública, a necessidade da redução da dependência da economia em relação à indústria extractiva e da diversificação da base produtiva do país.

“Vamos ter um inspector-geral do Estado que vai cavar tudo aquilo que cria barreiras, inspector-geral do Estado que presta contas directamente ao chefe de Estado”, declarou Chapo. O inspector-geral do Estado, prosseguiu, “irá ao terreno, investigar e apurar casos de corrupção. Já houve um inspector-geral do Estado na altura do saudoso Presidente Samora Machel, nós vamos fazer isso”, sublinhou.

Considerou que existe uma proliferação de inspecções no país e a reforma do Estado passa por analisar se essas entidades não bloqueiam o investimento e o ambiente de negócios.

“Temos de introduzir reformas, para combater todos aqueles males, como corrupção, nepotismo, amiguismo, compadrio, tráfico de influências e abuso de poder. Precisamos de uma administração pública íntegra”, frisou Daniel Chapo.

O chefe de Estado referiu ainda a necessidade de alterações legislativas para tornar o país num destino apetecível ao investimento.

Apontou igualmente o imperativo do controlo da despesa pública e do aumento das receitas, visando controlar o endividamento interno e externo.

“A dívida pública precisa de ser gerida criteriosamente (…). Fizemos mudanças na Autoridade Tributária, colocando novos quadros e mais qualificados, para o aumento da receita, para que possamos ter mais recursos para as áreas sociais”, destacou.

Daniel Chapo defendeu também que a economia do país precisa de reduzir a dependência em relação ao sector extractivo, apostando na diversificação do sector produtivo, como forma de levar o desenvolvimento para toda a população.

Chapo apontou a agricultura, indústria, infra-estruturas, turismo e energia como principais apostas do seu Governo e alicerces para o desenvolvimento económico e social.

“Temos um potencial energético suficiente, para tornar o país num ‘hub’ que possa fornecer energia aos países da África Austral”, salientou.

O chefe de Estado frisou que o maior desafio para os próximos anos, após 50 anos de independência nacional, é construir uma economia à altura de melhorar as condições de vida dos moçambicanos.

“A nossa economia é muito dependente da indústria extractiva, uma das nossas estratégias é a atracção de investimento em vários sectores, é preciso diversificar a economia, para conseguirmos recursos que permitam meios necessários às áreas prioritárias”, salientou Daniel Chapo.

 

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