Moradores de Ndunda, a nova área residencial nos arredores da Beira, expulsaram na passada quarta-feira trabalhadores do Gabinete de Reconstrução Pós-Ciclone Idai (GREPOC), quando estes, alegadamente, pretendiam anunciar o arranque do projecto de reabilitação das habitações que ficaram destruídas pelo Idai, em Março de 2019. “Estamos aqui para dar a conhecer a população de Ndunda relativamente ao arranque do projecto de reabilitação das habitações afectadas pelo Idai″, disse à sua chegada a equipa do GREPOC.
De imediato, os populares começaram a levantar a sua voz num ambiente de total distúrbio, denunciando que aquilo não passava de um jogo baixo que o GREPOC está a praticar para favorecer os planos da Frelimo que, a todo o custo, pretende vencer as eleições autárquicas na cidade da Beira.
Enfurecida, a população vaiou os trabalhadores do GREPOC e expulsou-os do local da reunião, a ponto de até abandonarem as suas viaturas que só viriam a ser recuperadas mais tarde, com a intervenção de agentes da PRM e alguns líderes comunitários locais.
Gerou-se uma agitação sem precedentes na história da existência da instituição governamental, que por pouco culminaria empancadaria se os trabalhadores do GREPOC não tomassem rápido a decisão de fugir do local.
Há muito tempo que a população da Beira se mostra agastada com a actuação do GREPOC, uma instituição que tem sido recorrentemente contestada e desacreditada pela morosidade que se tornou sua miserável marca institucional.
Após a devastação causada pelo Ciclone Idai no centro do país, o Governo criou, em 11 de Abril de 2019, o Gabinete de Reconstrução Pós-Ciclone Idai (GREPOC), sob o Decreto n.º 26/2019, para supervisionar a Planificação, Implementação, Monitoria e Avaliação, Recuperação e Reconstrução nas províncias afectadas.
Em 22 de Maio deste ano, o mandato do GREPOC foi estendido através do Decreto n.º 45/2019, para incluir a Recuperação e Reconstrução das áreas afectadas pelo ciclone Kenneth no norte de Moçambique. O GREPOC tem a sua sede na Beira, capital de Sofala, a província mais afectada, além de sub-escritórios em Maputo e Pemba.
Sob a liderança do GREPOC, com o apoio dos parceiros de desenvolvimento, o Governo moçambicano realizou uma Avaliação Pós-Desastre (PDNA), cujos resultados foram apresentados na Conferência Internacional de Doadores, realizada a 31 de Maio e 1 de Junho de 2019, na Beira. Os danos totais foram estimados em US $1,4 bilião e as perdas totais em US $1,39 bilião. Os custos de recuperação e reconstrução foram estimados em US $ 3,2 biliões para os dois eventos, dos quais US $ 750 milhões para recuperação do sector habitacional.
Para os moradores de Ndunda, o GREPOC demorou propositadamente implementar o projecto de reconstrução de casas para fazer coincidir a actividade com esta época eleitoral com vista a favorecer a Frelimo.
“Desde 2019 não fizeram praticamente nada e hoje que estão a ver a campanha eleitoral para as autárquicas de 11 de Outubro querem vir aqui nos enganar. Vocês são bandidos. Os carros comque estão a circular são nosso dinheiro. Acabaram de roubar nosso dinheiro que era para construir nossas casas e hoje querem nos enganar. É melhor saírem daqui, vamos construir pessoalmente as nossas casas”.
Alguns populares já mostravam sinais de quem se está a posicionar para partir para vias de facto. “Todos nós aqui na Beira sofremos, mas vocês foram priorizar comunidades de outras áreas que não sofreram tanto assim como nós. Estão aatrapalhar-nos e a recordar-nos o sofrimento que nós tivemos. Perdemos muita coisa, nossas famílias, nossas casas e agora estão a vir aqui fazer o quê? Estamos cansados da FRELIMO. Saiam daqui”.
Passada a fase de mobilização de fundos, foi identificada uma empresa que vai trabalhar com as comunidades no sentido de primeiro fazer uma reverificação das condições em que se encontram aquelas casas cujo registo foi feito pelo INE. Devido à demora no arranque do projecto, alguns afectados conseguiram encontrar recursos próprios para recuperar as suas casas e outras provavelmente o seu estado piorou.
Mas a população questiona como o GREPOC vai conseguir, no período de menos de um ano que falta para a sua extinção,cumprir as suas responsabilidades, se em quatro anos que já passaram não conseguiu nada. (Carta)