Os heróis de ontem disseram: dou a vida pelo meu país
O herói de hoje diz: o meu país que dê a vida por mim.
(Abe Chiwanda)
Encontramos o jovem Zeca sentado numa cadeira de napa preta num passeio da cidade Esta é a transcrição da entrevista que mantivemos com ele.
– Nome?
– Zeca Munu Zeca.
– Profissão?
– Manifestante. É a minha profissão. Está a ver esses montes de pedras? É para levar amanhã para as barricadas. Este monte é para atirar contra os carros. O outro é para atirar aos polícias. Eh pá, mas isto não está fácil. É que este governo construiu poucas estradas e agora há muita concorrência nas barricadas.
Explico ao nosso entrevistado que tivemos de parar em sete barricadas e que fomos obrigados a pagar em cada uma delas. O nosso interlocutor dá à volta à nossa viatura e detém-se perante o cartaz que colaram no vidro traseiro.
– Esse cartaz é muito feio, havia de ver os meus. O problema é que está difícil arranjar material. Muitas lojas estão vazias. Já quase não podemos ventalizar mais nada.
– Vandalizar…
– Isso. Chegamos lá e já foi ventalizado. Eu até já mandei uma proposta no facebook: assim como as manifestações são organizadas por dias e por horas, também devia haver uma organização das cobranças das barricadas a nível regional, cada um com a sua área. Uma ideia boa era criar a Associação dos Manifestantes Ambulantes de Maputo. A AMAMA. Estou a falar a sério, eu nem quero ser o presidente, posso ser o vice-presidente, não me importo nada. Mas assim, como está? Não dá. Eu já disse aos meus colegas: se a situação dos manifestantes não melhorar, vamos ter que entrar em greve. Vai ser um desastre, as viaturas todas a circular à vontade, para trás e para a frente, como era antigamente. Tenho pena, mas não há como. Nós aqui a lutar contra a corrupção e não somos valorizados?
Passa um carro de bombeiros e o jovem Zeca levanta-se num salto, ergue um cartaz e grita:este país é nosso! Depois volta a sentar-se e lamenta: com esta conversa até me esqueci de atirar pedras. Carro de bombeiro anima bem. É verdade, é muito fácil acertar. Eles andam devagarinho, nem é preciso apontaria. Nada.
O jovem estende-se no banco de napa que, como ele orgulhosamente confessou, retirou de um machibombo. Usa o cartaz como um leque para se refrescar. Nesse cartaz está escrito à mão: “Povo nú poder”.
– Desculpa, Zeca, mas esse cartaz tem um erro. Posso emendar? Não é “nú”. É “no” poder.
- As duas maneiras estão bem, meu pai. É que o povo anda nú por causa do poder. É isso, está a ver essa minha escrita: a educação em Moçambique é uma brincadeira. É por isso que amanhã vou incendiar uma escola. Para protestar contra essas brincadeiras. É como a qualidade das estradas. Uma vergonha! A gente quer queimar um pneu e aquilo não demora a apagar-se. É alcatrão chinês. Só pode.
O jovem retira do bolso o celular e comenta: olha, estão a mandar o resumo da Live. Eu já não escuto, só leio o resumo. Está aqui. A propósito de resumo: vocês têm de prometer que me vão ajudar a escrever o meu CV como jovem empreendedor. Porque eu só comecei com este serviço há pouco tempo, foi na Grande Marcha do Rovuma ao Maputo. Fui um dos quatro milhões. Bom, não foram quatro, foram… não sei bem-bem quantos eram, porque foi de noite.
– Vieste de longe?
– Sou daqui, sou de Boane.
– E essa ferida que tens no braço? O que aconteceu?
– Eh pá, foi ontem mesmo, me aleijei quando estava a fechar a sede de um partido.
– A fechar a sede de um partido?
– Foi o que mandaram, não foi? Agora, como se fecha uma coisa que é do dono e já está fechada? Tem que arrombar, tem que se partir, tem que queimar … Então, cumprimos as orientações, tudo numa boa, tudo pacificamente.
– E o Natal vais festejar?
– O pastor da minha igreja explicou que o Natal é coisa dos católicos. E da Babilónia primitiva, e do pastor. É o que disse o meu pastor. Nesse dia, vou trabalhar aqui na estrada. Eu já disse isso mesmo lá em casa, aos meus irmãos. Eles andam muito zangados comigo porque as empresas onde trabalham, umas já fecharam e outras deixaram de pagar salários. Agora, estamos todos txonados. Não sei se os senhores, meus pais, podiam me dar um patrocínio. Pode ser via internet, quero dizer, via mpesa. Ou mesmo via paypal.
- Vamos ver isso depois. Uma última pergunta, caro Zeca: tu foste votar?
Zeca Munu Zeca não responde. Balança uma pedra entre as duas mãos, como se escolhesse as palavras. Depois, levanta-se decidido: agora para saírem daqui vão ter de deixar essa máquina fotográfica. Abram lá essa sacola: não tem drones, por acaso? Se tiverem deixam tudo aqui comigo. É que estamos a passar da fase 4×4 para a fase Turbo. E vamos ter de documentar tudo, foi essa orientação, não foi? Então, tirem tudo o que têm, tudo numa boa, tudo pacificamente. Ah, um último conselho: no regresso, evitem passar por aquela estrada que ali, mais à frente, os meus colegas estão a queimar um posto de energia.
(*) Gentilmente cedida pelo jornalista Jair Cumaio da revista “Ler para Crer”