A recente decisão do Governo de Moçambique de alienar 91% das acções das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) para a Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM) e Empresa Moçambicana de Seguros (EMOSE) levanta sérias preocupações financeiras e estratégicas.
Para o economista Alfredo Mondlane, a decisão de vender acções da LAM, à primeira vista, pode parecer um plano de resgate da companhia aérea nacional, mas, na prática, transfere um problema financeiro para três empresas estatais sólidas, que agora correm o risco de serem contaminadas pela má gestão histórica da LAM.
“Essa operação não só expõe a fragilidade financeira do Estado, como também pode minar a confiança dos investidores nas estatais moçambicanas, comprometendo sectores estratégicos, como infra-estrutura ferroviária e energia eléctrica. O risco de um efeito dominó de crise financeira nas empresas envolvidas é real e precisa ser analisado com profundidade”, defende Mondlane.
O economista explica que a LAM tem sido um fardo financeiro ao longo dos anos, acumulando deficits operacionais e necessitando de constantes injecções de capital estatal. A sua ineficiência não vem apenas da falta de aviões modernos, mas de um modelo de gestão que não conseguiu tornar a empresa sustentável. Analisando a decisão do Governo, Mondlane depreende que o Executivo está sem capacidade financeira para salvar a LAM por conta própria, expondo a sua fragilidade fiscal.
“A operação não resolve o problema, apenas desloca a crise de uma empresa pública para outras, mantendo a dívida dentro do sector estatal. O sinal que isso envia ao mercado é negativo, pois demonstra que o Estado não tem um plano estruturado para tornar a LAM viável a longo prazo”, defende a fonte.
Para o economista, se a LAM continuar a operar da mesma maneira, não há garantia de que a HCB, CFM e EMOSE conseguirão sustentar a empresa sem prejuízos próprios. Sobre a arrecadação de 130 milhões de USD (cerca de 8,4 biliões Meticais) para reestruturar a LAM e adquirir oito novas aeronaves, o economista diz que não há detalhes claros sobre como esse montante será financiado, e se as estatais terão de contrair mais dívidas para absorver a LAM.
Avaliando os balanços financeiros da HCB e dos CFM, por exemplo, Mondlane afirma que a compra dos aviões pode ter impactos significativos. Segundo o economista, a HCB tem um balanço saudável, mas ao assumir parte da LAM, pode enfrentar o comprometimento de até 4,2 biliões de Meticais, caso assuma 50% da participação na LAM. Pode ainda enfrentar a redução de liquidez, impactando a capacidade da empresa de investir em projectos estratégicos do sector eléctrico, bem como o possível aumento de dívida, caso precise financiar parte da compra.
“Diferente da HCB, a CFM já apresenta um nível de endividamento elevado. Se precisar comprometer 4,2 biliões de MZN para assumir parte da LAM, os impactos incluem: aumento do passivo para mais de 53 biliões de MZN, reduzindo a sua capacidade de financiamento para projectos ferroviários; pressão sobre a sua liquidez, dificultando investimentos em infra-estrutura portuária e ferroviária; risco de aumento do custo da dívida, pois investidores podem considerar a CFM um activo mais arriscado”, explicou o economista.
Num outro desenvolvimento, Mondlane defende que a transacção não passa despercebida pelos investidores privados e parceiros internacionais. Para o economista, ao invés de uma reestruturação transparente e sustentável, a solução encontrada foi jogar o problema para estatais estratégicas. Isso pode afectar a percepção do mercado sobre a capacidade do governo moçambicano de gerir crises económicas e empresas públicas.
“Se o objectivo é tornar a LAM sustentável a longo prazo, existem melhores alternativas do que jogar o problema para HCB e CFM, nomeadamente, buscar um parceiro estratégico internacional como Ethiopian Airlines ou Qatar Airways. Essas companhias já investiram em outras empresas aéreas africanas e poderiam trazer gestão profissional e experiência operacional”, defende Mondlane.
Para o economista, em vez de alienar 91%, o Governo poderia vender 49% para um investidor privado e manter parte do controlo. Isso traria capital privado, sem comprometer a liquidez de CFM e HCB. Antes de transferir o controlo, Mondlane defende que o Governo deveria reestruturar a LAM, cortando custos e aumentando a eficiência operacional.
“A alienação da LAM não resolve o problema financeiro, apenas transfere a crise para HCB e CFM. Se mal gerida, essa operação pode comprometer sectores estratégicos da economia moçambicana, reduzir investimentos e afastar investidores externos. Sem um plano sólido de recuperação e sem transparência no processo, Moçambique corre o risco de transformar um problema isolado (LAM) numa crise financeira generalizada para as estatais estratégicas do país”, concluiu o economista. (Carta)