Enquanto lá fora a chuva cai em liberdade, esbatendo-se por sobre as chapas de zinco em forma de música, Hambvu está absorta em pensamentos que a levam aos tempos em que, com o marido, partilhava a vida intensa que ressurgia em cada precalço, trazendo mais labaredas mansas ao amor dos dois, e tudo o resto não importava. Está deitada de costas por debaixo dos lençóis que a cobrem até à cintura, deixando os seios à mostra, as pernas flectidas, na enorme cama que agora, após o companheiro ter morrido de cirrose, perdeu o conforto. Toda a casa está despojada de graça, até o relógio de pêndulo, dependurado na parede da sala, já não a diz nada, quem dava valor ao tempo e às horas era o Nhalégwè que, terminadas as caminhadas na terra, deu o último suspiro numa madrugada de domingo, sem sequer ter tentado a luta contra o cancro.
Chove desde o princípio da noite e já são sete da manhã. Os Céus paráram de ribombar nas insuperáveis trovoadas, mas a chuva, não! Cai intermitentemente ora em silêncio, ora em rajadas, ora em catadupa, despertando na mulher as mais lindas memórias da cumplicidade entre ela e o companheiro, memórias que se tornam muito mais lindas em cada dia que passa, mesmo estando sòzinha, sem o homem que dava todo o sentido à sua vida. Mas se esta – diz Hambvu apertando levemente o livro aberto ao peito – é a minha história, então deixa-me vivê-la no cume, onde o meu marido gostava de estar comigo, tendo-me como parte indispensável do seu ser. E por tudo isso recuso-me a desvanecer, pois, se assim o fizesse, estaria a vituperar a alma do Nhalégwè, que será para sempre o meu baluarte.
Nhalégwè era um homem bom, muito embora fosse negligente, não cuidava da sua saúde. Fumava como um louco, bebia sem parar, e quando estivesse embriagado era um regalo de pessoa. Contava histórias borbulhantes, reais e imaginadas e sonhadas. Provavelmente terá sido ele a influenciar a mulher a enveredar pelo hábito que se tornou vício. Hambvu fuma demais, muito demais, e bebe a potes. Quando está em órbita no eixo da bebida e do fumo, liberta as palavras em catarata para uma plateia constituída quase sempre pelas mesmas pessoas de sempre, que a escutam e a ovacionam com avidez nas barracas espalhadas pelo bairro Chalambe onde mora, palavras debruadas de poesia, assim como falava o marido, sempre pronto a meter flores mesmo naquilo que parecia um vazo partido, sem condições, portanto, de preservar a humidade. Só assim, pintando os discursos com as cores da imaginação, como o próprio Nhalégwè dizia à companheira, é que vale a pena conversar. Se não fizeres isso, não vale a pena falar.
Hambvu ficou com esses ensinamentos de uma pessoa que partiu sem deixar filhos, Não importa, Nhalégwè passou-me, como testemunho, a imensa luz do candelabro que ele era, e será para sempre. Estes livros todos arrumados meticolosamente na estante, e outros encaixotados, embora nunca os tenha lido, sinto-os como se os tivesse devorado. Conheço a história contida em cada um deles. Nhalégwè lia sem parar, e a única pessoa que tinha de imediato para contar todo o enredo, era eu, sem ele saber que estava fazendo de mim um fiel depositário da sua doce loucura. É esse o nó que me atava ao meu marido: a doce loucura que transmitia em todos os momentos, em particular quando estivéssemos só nós os dois na intimidade da nossa casa.
*Excerto do livro – no prelo – de Alexandre Chaúque