Director: Marcelo Mosse

Maputo -

Actualizado de Segunda a Sexta

15 de Agosto, 2021

Paulo Brito: Um Sonho de Infância Interrompido!

Escrito por

“Meu nome é Paulo Brito. Saibam que foi um sonho de infância falar para todos vós!

 

Voltaremos a estar juntos se Deus quiser!”

 

Era assim como Paulo Brito terminava as suas emissões na Emissão Nacional da Rádio Moçambique, onde era brilhante locutor. Mas o começo não estava também muito longe daquele texto: “Bom dia, boa tarde ou boa noite (conforme a hora de entrada)… meu nome é Paulo Brito! Juntos estaremos até sensívelmente… horas, se Deus quiser! Saibam que foi sempre meu sonho de infância falar para todos vós!”

 

Belíssima voz foi-se! Um nome já firmado na locução moçambicana calou-se para sempre. Nenhum choro a recuperará! Restar-nos-á a muita saudade. A saudade de um “sonho de infância” que foi abruptamente e violentamente interrompido.

 

Quando ele entrou para a Rádio Moçambique e começou a fazer emissões e a proferir que “se Deus quiser”, confesso que não fiquei confortável. Apesar de ter tido uma educação religiosa, não sou religioso devoto e entendo que, como de lei, a Rádio Moçambique é uma rádio pública, para todos os moçambicanos, independentemente das suas crenças religiosas. E essa menção podia estar a sectarizar certos moçambicanos. Mas descontava… em certa medida devido à sua electrizante voz que tornava doce e dinâmica a sua locução. O jovem já era… um grande locutor! Em pouco tempo de estúdio, cerca de dez anos por aí, ele já tinha mostrado credenciais de grande locutor, à altura da Rádio Moçambique! Esta é a minha opinião… provavelmente arrogante, porque muito eventualmente falando com o coração!

 

Sendo eu colaborador da Rádio Moçambique desde 1995, como comentarista, fiz questão de ver de quem se tratava. Certa vez, depois da gravação de um dos nossos “Esta Semana Aconteceu”, fiz questão de conhecer o tal Paulo Brito. Ninguém me apresentou, o nosso moderador só apontou que é aquele… ele estava no estúdio a fazer locução. Olhei só uma vez e a cara dele me veio à memória… fiz as minhas contas e contas e cheguei à conclusão: era ele mesmo!

 

Não conheci o Paulo Brito no aparelho de rádio a fazer locução da Emissão Nacional da Rádio Moçambique! Conheci-o em condições algo lamentáveis!

 

Era eu chefe de redacção do semanário “Domingo”. Estávamos nós em 1993! Antes do meu mestre Ângelo Oliveira, então secretário da Redacção, perecer.

 

O Ângelo Oliveira já ia no terceiro ou quarto cigarro. Meu gabinete tinha um vidro sem cortina, de tal forma que eu visualizava os movimentos na redacção e percebia os movimentos. Percebi que o mais velho Ângelo me queria abordar. Não me ocorre se estava ocupado com alguém ou não, ou se a escrever alguma coisa. Mas então anui que o mano Oliveira entrasse.

 

‘Há problema chefe’ – disparou logo que entrou, sem que lhe tivesse perguntado algo. Apenas levantei a cabeça e ele “desembuchou” (como dizem os brasileiros) logo! “Chefe, o X (não vou mencionar o nome do então colega) está mal. Pegou mulher do dono e o marido está lá embaixo à espera que ele desça para ajustar as contas…” – suspendeu a narrativa, à espera que eu reagisse. Como não reagisse, prosseguiu: “Está ali na Casa Pfaf e armado… é um militar… nosso colega corre perigo…”

 

Despertei para o assunto. O nosso colega X tinha um ximoco e o Ângelo queria que o ajudássemos. Se não fizéssemos nada, o nosso colega X podia mesmo ser baleado… e o nosso colega estava justamente na Redacção… e o algoz sabia que ele estava na Redacção. Estava à espera que ele descesse para o ajuste de contas. Parecia saber que as duas saídas do edifício são controláveis a partir da esquina da casa Pfaf! Eis então que estabelecemos com o Ângelo ouvir o nosso colega, antes de qualquer diligência. Chamamos o X e pedimos que nos explicasse o que estava a acontecer para podermos ajudar. Já tinha explicado ao Ângelo, faltava a mim.

 

Simples: ele realmente andava com a esposa do fulano. O fulano tinha sido militar; agora estava numa empresa de segurança e… andava armado. E estava armado naquele momento, ali no Pfaf. Pedimos que nos indicasse a pessoa a partir da janela da Redacção, sito no primeiro andar. Discretamente, fomos espreitar da redacção e… visualizamos o indivíduo. Vigoroso, bem parecido e em forma! E parecia com todo o tempo do mundo… mais uma dor de cabeça!

 

Achei que devíamos envolver o director Jorge Matine, o assunto era muito sério. Fomos ter com ele e os três concordámos que devíamos solicitar ao senhor para subir para falarmos com ele. Assim pensado, assim feito. Mas quem ia chamá-lo?… o Ângelo acabou indo chamá-lo, não sei depois de quantos cigarros… ele não ia balear um velho… subiu para o gabinete do diretor.

 

Estava de facto armado. E começamos a falar nós os três com o Paulo. Abriu-se. Quando estivesse de serviço noite adentro no Porto de Maputo, ou algures, o nosso colega X tomava posse… inclusivamente, namoravam publicamente nas paragens dos autocarros e era isto é que lhe doía mais. Queria que aquilo tudo acabasse, caso não, ele ia resolver pessoalmente. Mas queria que, ali no gabinete do director, o ofensor se confessasse e apresentasse pedido de desculpas.

 

Tiku kinze! Ficamos zuumm… e se ele disparasse? Houve um interminável minuto de silêncio, após o que o Matine sensibilizou para uma solução pacífica. E o Paulo Brito deu garantias que não ia disparar caso ele pedisse desculpas e só o faria caso ele continuasse. Depois disso, o Ângelo Oliveira foi chamar o colega, naturalmente depois de o brifar e sensibilizar.

 

Minutos depois, entravam os dois no gabinete do director. Silêncio sepulcral. Mas depois, o Jorge Matine pôs os pontos nos is e deu a palavra ao nosso colega X, que, brifado, foi na linha do ofendido. Que pedia desculpas; ia parar de andar com a esposa do ofendido.

 

O Paulo Brito demonstrou grande coração. Chorou. Confessou a sua tristeza e garantiu que se o nosso colega parasse de andar com a sua esposa ele nunca mais ia fazer ximoko, mas que se ele persistisse, ele tinha arma em dia.

 

Fechamos assim.

 

Foi aí e assim que conheci o Paulo Brito!

 

Reavê-lo nos microfones da Rádio Moçambique, na Emissão Nacional… um guarda de segurança… criou-me alguma confusão; mas foi um grande trambolhão! Enorme salto na vida. Esperava um dia convidá-lo para um café para falarmos de tudo isto. Nunca mais vai acontecer.

 

Mas fica a grande lição para os jovens. É POSSÍVEL SAIR-SE DE AGENTE DE SEGURANÇA PARA GRANDE LOCUTOR DE RÁDIO E DA RÁDIO MOÇAMBIQUE EM PARTICULAR!

 

Não menor lição de vida para todos nós: É POSSÍVEL MANTER A CABEÇA FRIA EM SITUAÇÕES MUITO COMPLICADAS COMO INFIDELIDADE CONJUGAL!

 

Até sempre, Paulo Brito! Obrigado pelas lições aos homens! Perdoe tudo e todos. O mundo está cheio de más coisas! Até sempre Irmão de Fê!

 

ME Mabunda

Sir Motors

Ler 282 vezes