Director: Marcelo Mosse

Maputo -

Actualizado de Segunda a Sexta

Banner
1 de Agosto, 2018

Sobre uns desertores e parias…

(Maputo, 22/07/2018) No dia 29 de Abril de 2009, o então Presidente americano Barack Obama recebia na Casa Branca o Senador Arlen Specter, da Pensilvânia, um republicano que decidira bater asas para o campo oposto. Obama disse a Specter que contaria com o seu apoio para a reeleição em 2010. Isso aconteceu. Specter decidiu virar democrata alegadamente porque o Partido Republicano se estava encostando muito à direita da sua visão.

Specter ajudou Obama num momento pivô da sua agenda política, de acordo com o New York Times. A mudança foi um golpe na bancada republicana no Capitol Hill, uma vez que os democratas passaram a controlar a camara. Outro episódio marcante: o antigo senador independente Joe Lieberman, que foi candidato a vice-presidência na corrida de Al Gore em 2000, acabou se juntando à candidatura de John Mcain contra Barack Obama. Dois episódios mostrando que a mudança de partido (party switching em inglês) por parte de figuras de proa é prática recorrente em democracias maduras. Nos EUA, há registo, desde o século 19, de mudanças de partido. Abraham Lincoln trocou o extinto partido Whigs pelo Republicano.

Há dias em Moçambique assistimos a sonantes mudanças de partido: o Eng. Venancio Mondlane e o Dr. Manuel de Araújo debandaram do MDM para a Renamo. Para eles, o ambiente no MDM estava crispado. Eles seguiram o seu instinto. Muitos comentadores optaram por vilipendia-los. Foram acusados de deserção traidora, de párias. Um certo reaccionarismo naif dominou a maioria dos comentários.

Joe Lieberman deixou os democratas para assumir uma posição de relevo num eventual consulado de John Mcain. Specter teve argumentos de ordem ideológica: ele era um defensor dos direitos do aborto e da expansão da pesquisa sobre células estaminais embrionárias, mas também se oponha a uma emenda constitucional visando banir o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

O realinhamento político de Mondlane e Araújo não tem propriamente cunho ideológico: com o MDM no precipício, eles encontraram na Renamo a única plataforma que lhes pode levar a conquistar ou manter o poder. E fazer isto é fazer política. Política pura. Os políticos aliam-se a uma plataforma que lhes garanta essa possibilidade. E os partidos abraçam gente com capital mobilizador. Obama abriu os braços a Specter por ele era um trunfo eleitoral. Daviz Simango recebeu no MDM Mondlane e Araújo porque eles tinham capital mobilizador, e foi o que se viu, com Araújo conquistando Quelimane e Mondlane tendo um desempenho nunca visto de um candidato da oposição em Maputo e brilhando na Assembleia da República. Agora que ingressaram na Renamo ele se tornaram demónios. Mas quem mais grita contra eles não é o MDM. São os comentadores afectos à Frelimo. E isso é notável. Seu ingresso na Renamo obriga a Frelimo a arregaçar as mangas.

Moçambique está a viver tempos interessantes.
A desmilitarização da Renamo abre espaço para o acolhimento de vozes críticas com bagagem académica. Se isso se traduzir na vitória de mais municípios agora em Outubro e na melhoria do seu desempenho nas legislativas e provinciais de 2019, a Renamo estará enterrando sua barganha bélica para se tornar numa verdadeira alternativa à Frelimo. Para o bem de Moçambique, é fundamental que a oposição renasça e faça política com ideias e propostas sem a tentação do gatilho. A deserção de Araújo e Mondlane para a Renamo é boa para nossa democracia. O resto é conversa fiada.

Nas fotos: Obama recebendo Specter. Venancio Mondlane e Manuel de Araújo já trajando as cores da Renamo.

Sir Motors

Ler 4552 vezes